April 13th, 2010 | Author: hugorila |
Bater no ceguinho. Fica sempre bem dizer “eu bem disse mas ninguém me ouviu”. É por isso que eu quero deixar aqui registado que, de tanto bater no ceguinho, o povo vai acabar por ter pena dele. Esta semana nos jornais portugueses tivemos em paralelo o caso da TVI, o caso das escutas destruídas ou por destruir, o caso dos submarinos e agora o caso das casas da Guarda. A páginas tantas, a gente já começa a ter pena do homem. Para ser sincero, sobre este último escândalo eu nem sei muito bem qual é o caso. O pior é sem dúvida o mau gosto do PM no que toca a projectar vivendas. As poucas imagens que eu vi são horrendas e acho que isso seria suficiente para qualquer PM que se preze apresentar a demissão. “Demito-me por mau gosto e por ter decepcionado os portugueses com os meus valores estéticos e arquitectónicos”. Isto sim era um PM a valor. Mas parece que não é esse o problema. Afinal é o das compatibilidades, mas talvez não, talvez seja o problema do desleixo, ou talvez o problema do diploma de engenheiro. Tenho para mim que o grande caso é que o Sócrates foi apanhado dentro de um submarino de fabrico alemão a destruir escutas onde se podia ouvir que ele queria comprar a TVI com o dinheiro que ganhou a projectar vivendas geminadas na Guarda. Isto é que era um caso.
A vantagem do poeta. O Manuel Alegre acha que parte com vantagem para as eleições presidenciais porque “professores de Finanças, professores de Economia, tecnocratas, há muitos. Poetas envolvidos na política há muito poucos”. Poetas na política conheço pelo menos mais um, o Manuel João Vieira dos Irmãos Catita que já foi pré-candidato duas vezes. Já operários metalúrgicos envolvidos na política só conheço o Jerónimo de Sousa, se calhar ele é o verdadeiro trunfo para as próximas presidenciais. Pela lógica do Manuel Alegre, quanto mais rara a profissão, mais vantagem política daí se retira. A malta está farta de tecnocratas, é tempo de termos um astronauta presidente. Eu acho que o Manuel Alegre ainda não percebeu que o facto de haver tantos tecnocratas (e juristas diria eu) na política é porque eles não encontram emprego em mais lado nenhum. Pelos vistos os poetas têm mais sorte.
Mesquinhez. Outro caso da semana foi o prémio de 1.8 milhões de euros do Mexia como presidente da EDP. Ana Gomes, a mulher que mais decibéis produz na política portuguesa, veio berrar que era uma imoralidade. António Seguro disse o mesmo. O curioso é o argumento “Em fase de enormes dificuldades e de exigência de sacrifícios aos portugueses, é incompreensível como se atingem estes valores remuneratórios.” Pergunto então ao José Seguro e à Ana Gomes quanto vale a moralidade? Será que os portugueses acham moral que o José Seguro ganhe 60,000 euros anuais mais ajudas de custo como deputado? Ele e os compinchas dele que depois aparecem no parlamento quando lhes dá na real gana, justificando as ausências com “trabalho político”? Talvez estes dois arautos da moralidade sejam perros na matemática mas eu dou uma ajudinha. Se cada um dos 230 deputados tirar 560 euros ao seu salário conseguem pagar o prémio do Mexia. Será que o corolário da moralidade é os deputados ganharem o salário mínimo enquanto houver pelo menos um português no desemprego? Será que a Ana Gomes acha isso imoral? E o que é que acham os desempregados? Para além da mesquinhez das declarações, estes personagens ainda misturam tudo. A EDP não é uma empresa pública, é uma empresa privada onde o Estado português tem uma participação minoritária (20%). E mais ainda, o Estado tem poder para limitar os lucros da EDP porque as tarifas de energia são reguladas. Imoral é gastar dinheiro dos contribuintes a pagar a gente que faz carreira à custa do Estado sem fazer um charuto, como é o caso da maioria dos deputados. Se a Ana Gomes e o António Seguro algum dia resolverem deixar a mama do Estado e se dedicarem a trabalhar no mundo real, talvez algum dia entendam a palavra mérito e a relação entre salário e resultados.
Rábula da semana. O título dizia “Líder do manifesto contra as renováveis propôs parque eólico off-shore ao Governo”. O líder é o Mira Amaral, um mestre na arte dos “projectos especiais” para o desenvolvimento do país. O positivo é que, pelo menos, ele não tentou negar o caso. Em vez disso, disse não haver qualquer contradição. “Como cidadão, tenho toda a legitimidade de discutir a lógica das políticas do Governo e, por outro lado, aproveitar as oportunidades de Mercado”. Eu não discordo da declaração porque se fala em legitimidade, e o “olha para o que eu digo não olhes para o que eu faço” é legítimo. Outra coisa é ter a cara dura para se apresentar em público como activista de uma causa, quando em privado se actua contra a causa. Eu nem acho que seja pouco ético, é mesmo só uma questão de princípio.
Jorge Miranda e os gays. Na semana em que o TC declarou constitucional o casamento entre homossexuais eu não quero deixar de trazer de novo para a ribalta as declarações, para mim históricas, do grande constitucionalista Jorge Miranda. Continuo a achar escandaloso que a afirmação miserável deste suposto especialista não tenha tido eco qualquer na imprensa, que está mais preocupada com as casas geminadas do Sócrates e as guerrinhas do PSD. Recordo aqui o que o senhor disse há um mês atrás: “Os homossexuais têm todos os direitos dos cidadãos portugueses, inclusive o direito de casar. O que não podem é casar com pessoas do mesmo sexo”.
April 5th, 2010 | Author: hugorila |
Debaixo de água. Tenho que confessar que não consigo acompanhar o ritmo dos escândalos em Portugal. São dois problemas – por um lado há escândalos novos com uma regularidade pasmosa, e por outro a temática é de tal forma variada que não permite manter-me a par do assunto. Ainda há duas semanas estava a estudar comunicação social em Portugal e agora sai um escândalo de submarinos. Toda a pesquisa feita até agora sobre televisões tem aplicação nula nesta nova temática. E agora vou ter que começar a estudar questões de defesa e de hidroestática e o teorema de Arquimedes. Obviamente, não é de espantar que o povo comece a desinteressar-se dos novos escândalos, simplesmente não há capacidade intelectual para acomodar tantos e tão bons escândalos em tão curto espaço de tempo. Como tal, eu gostava de pedir aos jornalistas portugueses que criassem uma bolsa de escândalos comum a todos os jornais e fizessem uma gestão integrada dessa bolsa com regras claras. Por exemplo, não deve ser publicado um novo escândalo enquanto ainda houver notícias a ser publicadas sobre o anterior. Não deve sair a público mais do que um escândalo em cada bimestre. E podem sempre pôr um prática um sistema de moeda ao ar para saber quem publica o novo escândalo em primeira mão. Desde já agradecido pela atenção.
A surdez do papa. Esta semana o Papa Bento XVI veio dizer que não se vai deixar intimidar pelos murmúrios da opinião dominante. Esta declaração revela, antes de mais, um problema sério de audição do Papa. Também prova, uma vez mais, que a igreja católica deveria repensar o princípio de eleger velhos decrépitos para o cargo. Apesar de ser um eventualmente embaraçoso para a igreja, não deixa de ser relativamente comum um tipo acima dos 80 anos ter problemas de audição. Se o papa tivesse uma audição normal teria percebido que os murmúrios são clamores ao nível de um estádio de futebol quando uma equipa marca o golo da vitória no minuto 92 na final do mundial. Quanto à declaração em tom de ameaça, o único comentário que merece é que ele se deveria preocupar mais em arrumar a casa e resolver o problema que tem em mãos to que em lançar mensagens sobre uma questão que não tem defesa possível. A opinião dominante é dominante por uma razão óbvia – porque pedofilia é crime. Os murmúrios que o papa mal consegue ouvir são uma reacção comedida a um problema sério que a igreja tentou esconder. Mais auto-crítica e menos indignação são os meus conselhos para a o papa Bento XVI. E um aparelho para os ouvidos.
Gordura é formosura? Diz um estudo publicado esta semana que os homens portugueses não estão mais magros. Eu sempre pensei que uma barriga de cerveja não fica mal a nenhum homem, sobretudo se acompanhada de uma camisa um tamanho abaixo do devido em que os botões parece que vão saltar a qualquer momento. O estudo também nota que os adolescentes não sabem quantas calorias ingerem às refeições, o que pelos vistos é um problema. Vamos lá ver uma coisa. Com os problemas que eles já têm na escola para aprender o básico, pedir aos putos que agora aprendam a contar calorias e decorar quantas calorias há em cada alimento parece-me utópico. Por outro lado, eu quando era adolescente não sabia sequer o que era uma caloria e nunca fui gordo por causa disso. O problema da obesidade não é um problema matemático, é um problema físico. Não é um problema de contar calorias, é um problema de sedentarismo. É mais fácil pedir a um adolescente que corra atrás de uma bola durante 2 horas do que pedir que limite o consumo diário a 2000 calorias. Quanto à estatística, ela diz que metade dos homens são pré-obesos e 11% obesos. A avaliar pelo meu grupo de amigos, eu diria que a média nacional nem é assim tão má.
PS. Enquanto estava a escrever este post recebi a notícia que Eugène Terre’Blanche foi assassinado na África do Sul. Apesar do mais profundo desprezo que nutria pela personagem, o homicídio é uma acção execrável que me deixa dois motivos de enorme preocupação. Por um lado, volta a provar que na África do Sul ainda está arreigado o princípio da justiça por conta própria, o que revela descrença no poder judicial ou na independência do governo. Por outro lado, o episódio pode levantar uma onda de reacção de dimensões incalculáveis. Só espero que entre governo e oposição consigam travar essa reacção e que não se assista na África do Sul a algo equivalente ao movimento que transformou o Zimbabwe, provavelmente o mais próspero país africano no final do século passado, na mais absoluta ruína com consequências humanas catastróficas. Entretanto, os jornais portugueses parecem apenas preocupados com as consequências no Mundial de futebol. O importante é estabelecer prioridades.
March 30th, 2010 | Author: hugorila |
A essência da greve. Eu entendo o objectivo de uma greve como elemento de pressão durante uma negociação. Outra coisa é concordar ou não com a maioria das greves que são convocadas, que na maioria respondem a interesses minoritários de um grupo dirigente, mas entendo o conceito de greve. Agora expliquem-me a greve dos pilotos da TAP porque eu não entendo essa. Convocar uma greve a meio de uma negociação para depois a desconvocar sem aparentes resultados que não seja a perda de uns milhares de passageiros tem que objectivo? Se o objectivo é levar a empresa à ruina (ou acelerar o processo) a ideia é brilhante. Há comportamentos que me deixam entre o baralhado e o estufefacto, este acrescenta ainda o indignado. Porque os pilotos não são, de longe, aqueles que mais razões de queixa têm na empresa e com esta decisão absurda põem em risco o trabalho de gente que nada tem a ver com os caprichos dos senhores do boné.
Números e feeling. Na semana que passou foi publicado um estudo que revelava que há excesso de mortes nos hospitais ao fim-de-semana. Eu só li o título e acredito que, como em qualquer estudo, os números escondem nuances que terão que ser lidas com mais cuidado. Não sei quantos hospitais foram estudados, como foram calculados os números, quem foi entrevistado, quem são os autores, etc, etc. Mas parece-me de uma leviandade extrema a reacção do bastonário da Ordem dos Médicos, que diz que o estudo é um completo disparate. E como é que este senhor, que é no fundo o número 1 da sua classe, forma essa opinião? Através do raciocínio brilhante “se isso fosse verdade nós já tínhamos reparado”. Não há nada como um feeling. É esta a qualidade dos cientistas que governam no nosso país?
Contrição. Saltou a tampa na Igreja Católica. Primeiro era um boato, que virou murmurinho, que agora se transformou num clamor. De repente há escândalos de pedofolia em todos os cantos da Igreja. O problema tem duas faces: do ponto de vista legal, justiça com todos eles que ninguém está acima dos tribunais civis, do ponto de vista da religião a questão devia resolver-se por si só. Se os crentes acreditam na sua religião, o julgamente final será o mais importante e esse não está a cargo deles. Se calhar o que eles deveriam perguntar é que tipo de religião permite que estes tipos cometam actos condenáveis pelo credo que professam sem aparente contrição.
O estado da bola. Eu não costumo falar muito de futebol mas de vez em quando há rábulas que valem a pena ser comentadas. A imagem do final da primeira parte do “jogo do título” no Estádio da Luz dá que pensar. Quando toda uma equipa de jogadores e técnicos tem receio de se meter num túnel de balneários de um recinto público guardado, alguma coisa está a correr muito mal. Se a isso se soma toda a rábula das suspensões que afinal não são e do tipo que se demite apesar de acreditar nas instituições. Já quisera o Sócrates ter essa integridade democrática, digo eu. Ou talvez não.
P.S. Não me lembro quando nem onde mas li uma entrevista da ministra da cultura que vale a pena ser lida. É dessas que vale mais do que o título.
March 19th, 2010 | Author: hugorila |
Jorge no país das maravilhas. O Jorge Miranda deve ter caído nalgum buraco que o levou ao país das maravilhas em que ele vive agora. No país das maravilhas do Jorge Miranda não há discriminação, toda a gente tem os mesmos direitos desde que se comporte como o Jorge Miranda acha. Entretanto o Jorge Miranda voltou ao país real mas ainda está a delirar. Num desses delírios ele disse achar que, apesar do casamento homossexual ser inconstitucional, na actual lei “não há factor de discriminação. Os homossexuais têm todos os direitos dos cidadãos portugueses, inclusive o direito de casar. O que não podem é casar com pessoas do mesmo sexo.” Não fui buscar estas aspas a nenhum folhetim satírico, a fonte é séria. Este argumento tem um conteúdo extraordinário. Para o genial Jorge Miranda, a Inquisição também seria constitucional, uma vez que não havia factor de discriminação. Todos os cidadãos tinham liberdade religiosa, desde que professassem o catolicismo. Felizmente para o Jorge Miranda, a liberdade de expressão é um direito constitucional (dizem que sim), senão já alguém lhe tinha cortado a língua por senilidade ou estupidez natural.
Na mouche. Ou, como dizia um professor meu que não gostava de estrangeirismos, na mosca. A morte do Snake, o MC morto a tiro por um PSP, é obviamente um caso sério, muito sério. Mas não podia discordar mais dos saltam já para a tragédia, baseando-se em declarações das únicas pessoas que até agora falaram que foram familiares e amigos da vítima, que naturalmente acham que ele era um santo. Muito santo não devia ser porque para passar quatro anos na prisão em Portugal é preciso algo mais do que fazer milagres. O primeiro facto relevante é que sabemos agora que o Bloco de Esquerda acha que a polícia deve (tem que?) andar desarmada. Senão alguém que explique as declarações da deputada Helena Pinto que diz querer saber que medidas vão ser “implementadas junto das forcas de segurança para que não se venha a repetir comportamentos.” Portanto, isto da polícia andar com pistolas, apontá-las e até dispará-las é inadmissível. Toda a gente sabe desde o tempo do António Guterres que o diálogo é a melhor forma de resolver problemas. Mas como todo o bom político fala sobre tudo sem saber de muita coisa (os congressistas do PSD também), ninguém precisa que se conclua o inquérito. Todos caem em cima da polícia quando deixa passar em branco um anónimo terrorista da ETA numa operação stop e caem também em cima dela quando abatem um tipo que esteve quatro anos na prisão porque, de acordo com a família, ele era um santo. Menos decibéis e mais atenção aos factos seria um bálsamo. Mas isto é política e, como tal, é quase utópico pedir que deixem discorrer o inquérito e aguardem pelas conclusões.
Metabusca. Eu tenho um carinho especial pela metafísica porque, tinha eu 11 anos, espalhei-me ao comprido a tentar analisar um texto sobre uma espingarda metafísica. Claro que, com 11 anos, eu mal sabia o que era a física, quanto mais a metafísica. Mas com a idade fui aprendendo da física, da metafísica, e do meta propriamente dito. Por exemplo, qualquer meta-coisa tem uma limitação natural, que é a coisa em si. Esse é o problema das metabuscas da PJ, é que fazer buscas para entender as buscas só dá resultados se se souber o que se anda a buscar, para quê e, sobretudo, porquê. Um documento timbrado em casa do doutor Vara dá origem a uma metabusca, mas anos de violação de segredos de investigação nunca originaram qualquer metabusca. Porquê? Alguém sabe realmente o que anda a buscar?
Saldos dementes. Ser louco é cada vez mais de borla. Antes ser maluco era uma coisa séria, tão séria que não se usavam eufemismos como incapacitado ou desfavorecido. Não! Um gajo era maluco, louco, pírulas, demente. Mas tudo mudou, e agora se eu como sofregamente, ou bato na mulher, ou tenho desejos de uma rapidinha todos os dias sou demente. Mas há mais, muito mais, no DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). Aconselho a leitura porque ser demente hoje está em saldos.
Lei da rolha. Já não se pode ouvir falar da lei da rolha, mas não podia deixar de mencionar a tragicomédia do PSD. O Santana, que tirando quando fala de futebol só costuma dizer disparates, esta semana acertou. Estes senhores, que falam sobre tudo, calaram-se quando a mudança de estatutos foi aprovada. Foi sair porta fora do congresso (literalmente) e são todos umas virgens ofendidas. Mas melhor ainda, depois veio a guerra para saber quem era a mais ofendida das 3 virgens. E é como a história dos 3 porquinhos. O José fez uma casa de palha, disse que não concordava e que, se calhar, se devia repensar a mudança. Veio o lobo e a casa foi abaixo. Então o Pedro fez uma casa de madeira, disse que não era se calhar, que era preciso mudar já no próximo congresso, umas semanas depois destes esclarecidos e coerentes congressistas terem aprovado tal lei. Veio o lobo e mandou a casa abaixo. Mas então veio o Paulo e disse, quando os outros dois porquinhos ainda andavam a constuir a casa, já ele se tinha indignado e o lobo não pode comer aquele que se indigna primeiro. O Paulo esqueceu-se de dizer que foi também o primeiro a sair pela porta e a ser confrontado pelos únicos que de facto estavam atentos ao que se passava no congresso: os jornalistas. E o lobo também o comeu. Vamos ver qual dos três o lobo regurgita para ser o auto-intitulado “próximo primeiro ministro de Portugal”. Como diria o doutor Jardim, cada um tem aquilo que merece.
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March 15th, 2010 | Author: hugorila |
Not in my backyard. Na semana que passou foi apresentado o PEC, Plano de Estabilidade e Crescimento. Eu não quem baptizou estes planos mas, olhando para as economias portuguesa e europeia na última década, há que reconhecer que tem sentido de humor. As reacções nas últimas semanas ao anunciado PEC revelam a essência da natureza humana a que os ingleses alcunharam de NIMBY, ou seja, not in my backyard. O caso é frequente, toda a gente quer um Estado mais leve, mais eficiente e que cobre menos impostos, mas quando confrontados com medidas concretas para reduzir a carga fiscal e o peso do Estado na economia, quase ninguém as apoia. E como na política escasseiam personagens que, como se diz em bom português, os têm grandes e no sítio, estes PEC continuam a ser uma farsa. É por causa do sídrome NIMBY que o PSD passa um mês a criar comissões de inquérito e a deitar as mãos à cabeça pela liberdade de expressão e na primeira oportunidade de que dispõe, dá mostras ao país de como se trata o assunto no partido – com expulsão. E é também por causa do NIMBY que toda a gente aprova o PEC mas depois exige mais milhões para as regiões autónomas, ou autarquias, ou vá-se lá saber que mais. Todos os sacrifícios soam bem desde que não afectem o meu mundinho.
Cavaquês. Quando na semana passada fiz o paralelo entre o futebol e a política não podia imaginar que o PR iria dar uma grande entrevista em grande estilo, e o melhor estilo de Cavaco Silva é muito semelhante ao do treinador Octávio Machado nos seus tempos áureos. Se repararem, o cavaquês do PR parece português mas não é bem. Porque quando alguém fala português a gente entende e quando o PR fala em cavaquês a malta intui o que ele quer dizer mas ninguém realmente tem a certeza do que ele está a falar. Aliás, tal como acontecia quando Octávio Machado falava e algo não muito diferente do que quando os bebés começam a falar e as mães parecem entender tudo. É mais fachada do que outra coisa, ninguém entende nada mas não queremos dar parte de fraco e por isso tentamos intuir. E parece consensual intuir que o PR acha que o PM é mentiroso e que, como consequência, se deveria demitir. E intuimos também que ele se vai recandidatar e, a menos que o ameacem de partir uma perna, ele não vai dissolver o parlamento. Mas vá-se lá saber se o que nós intuimos é mesmo o que ele quer dizer, porque o cavaquês é uma língua unipessoal.
O supérfluo da cultura. Vem em letras pequeninas no jornal mas a sua relevância extravasa a pequenez do facto relatado. Na Câmara de Torres Vedras gerou-se uma algazarra porque o presidente assinou a aquisição de uma obra de arte pela qual a autarquia vai pagar 150 mil euros. Diz a oposição que a despesa é supérflua no actual contexto de crise. Claro que a oposição não considera supérflua os 5 milhões de euros que o ministro das finanças apelidou, e bem, de money for the boys. E seguramente a oposição não acha supérflua a despesa em rotundas e embelezamentos semelhantes que todos os anos vemos ser eregidos nas imediações de quaisquer paços de concelho que se prezem. E não considerará supérfluos ainda os milhões gastos em representação e outras metáforas do género com que as autarquias nos brindam todos os anos para justificar um abuso visível do erário público. Mas como falamos de cultura, 150 mil euros é uma despesa supérflua, porque à boa moda salazarista, quanto mais ignorante for o povo mais fácil é governar.
March 10th, 2010 | Author: hugorila |
Alguém devia dizer aos senhores do PSD que, em álgebra, a soma de vários zeros não dá nenhum número positivo, e fora da álgebra às vezes ainda dá soma negativa. Na semana que passou aconteceram os debates sociais democratas. Mas mesmo antes dos debates acontecerem, os candidatos tiveram tempo para dar entrevistas, escrever nos seus sites pessoais e até blogues e twitter, e dizer o que lhes passava pela cabeça com toda a calma e sem precisar de elevar o tom de voz. E qual foi o resultado? Fraquinho… Perante o deserto de ideias de qualquer dos candidatos, ficamos com chavões – ruptura, aparelho, reforma.
A bola e a politica. Há já algum tempo que venho pensando que a política cada vez se parece mais com o desporto. Como eu sou desta equipa, não gosto da outra equipa e se for preciso até insulto os adeptos do rival. Não interessa quão (ir)racional o meu argumento seja, ou até o que é que o outro está a dizer, importa é saber se é da minha equipa ou contra a minha equipa. Esta dicotomia não acontece apenas em Portugal, longe disso. Antes, tenho visto esta tendência em vários países onde há tradição de governo em alternância, com dois partidos dominadores que se vão alternando no poder e que têm o hábito de governar em maioria absoluta ou confortável – Espanha, Reino Unido, Estados Unidos, entre outros. Ninguém precisa de falar a sério com ninguém, excepto para dirigir alguns insultos ou piadas de mau gosto, ou seja, ao melhor estilo da bola.
Os media e a bola. Se pensarmos bem, o mundo dabola (e falo de futebol porque em Portugal é o desporto por excelência) sofreu uma mudança radical nos últimos 20 anos, em grande parte por culpa da televisão e da febre mediática que assaltou o nosso mundo. Nos anos 80 e parte dos 90 os jogadores eram quase todos broncos, sem escolaridade e mal sabiam falar. Claro que, se para alguém com o dom da palavra, falar à frente de uma câmara é complicado, para alguém iletrado é um desastre. E eu assisti durante anos a pérolas memoráveis dos jogadores da bola. Mas há algo que tenho que reconhecer aos jogadores de então, e é que eles sabiam do que falavam e tentavam-no expressar o melhor que podiam. E, quando decifrado, nós sabíamos que às vezes se marcam golos com sorte (“marquei com o pé que estava mais à mão”), que o mundo da bola é uma máfia (“vocês sabem do que é que eu estou a falar”) e que, no fundo, este desporto tem muito de individualismo (“só existem três coisas que param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá”). Nos 90 a televisão chegou em peso ao futebol, os jogadores começaram a ser estrelas e também a ser mais conscientes da sua imagem no ecrã. E qual foi o resultado? O vazio. Hoje, quando um jogador fala já não diz bacoradas, já fala com boa gramática e sem erros ortográficos, mas não é capaz de expressar uma só ideia. Tudo soa mais ou menos assim “O que importa não é o meu golo mas os 3 pontos e ajudar a equipa a conquistar títulos, não o teria conseguido se não fossem os meus companheiros, agora temos que pensar no próximo jogo e vamos encarar cada jornada como se fosse uma final e não quero falar do árbitro porque ele fez o trabalho dele e nós o nosso” [respirar]. Quem diz jogadores, diz treinadores e presidentes. O mediatismo destruiu a espontaneidade e com ela qualquer ponta de originalidade.
A política e a bola. Por coincidência ou não, com esta vaga de jogadores estrela com discursos mecanizados, surgiu uma geração de políticos com características muito idênticas. Preocupação com a imagem, com uma trupe de assessores de topo o tipo, com um discurso eficiente, mecânico e extremamente estudado. Em comum com os jogadores da bola têm uma coisa: um relações públicas ou RP – e não falo dos inúteis que se passeiam por este mundo a apresentar-se como RP de coisa nenhuma, falo de RP de profissão. Os RPs servem para mecanizar discursos, evitar gafes e embaraços e, em última análise, problemas. Para tal têm uma regra de ouro, que o meu último RP me repetiu até à saciedade: quando não sabes o que responder, dizes “não comento”. Simples. E graças aos RP, temos hoje na bola como na política uma geração “não comento” que raramente se engana e nunca tem dúvidas. E trago à memória esta grande citação do nosso agora PR, provavelmente a última grande gafe deste senhor, porque ele é talvez a face mais visível da transformação da política na era da TV. Ver o Cavaco Silva no final dos anos 80 e no final dos 90 é quase como ver o João Pinto capitão do FCP transformar-se no Cristiano Ronaldo dos nossos dias. A base é a mesma, o RP é que não.
À bola o que é da bola. Infelizmente, há uma diferença de vulto entre os jogadores e os políticos. Os primeiros são pagos para jogar e o que eles dizem importa pouco para a essência do espectáculo, os segundos são eleitos para governar e o que eles dizem reflecte-se no que fazem. E assim passámos dos políticos dos 80, que cometiam gafes, atropelavam-se nos debates e perdiam as estribeiras em público, aos políticos de hoje que debatem com tempo cronometrado, sem direito a interrupções, num espectáculo que faz do curling um desporto de emoções fortes. E o problema é que passámos também de políticos com visão de futuro e de governação, capazes de expressar ideias independentemente da sua bondade televisiva, a políticos que hoje soam assim “vou lutar por um país mais desenvolvido, mais igualitário, através de um conjunto de reformas na justiça e na educação, por via da desburocratização do aparelho do Estado, por forma a garantir maior transparência das contas públicas e assim vencer o desafio da modernidade”. A maior diferença é que os jogadores já aprenderam a não falar do árbitro mas os políticos ainda insultam a oposição, interna ou externa.
March 2nd, 2010 | Author: hugorila |
Em 1993 Portugal perdia em Itália o derradeiro jogo de qualificação para o mundial, falhando a qualificação e no final do jogo o então e hoje seleccionador deixou uma pérola para as hemerotecas: “É preciso varrer a porcaria que vai na federação”. Passados todos estes anos, lembrei’me dessa pérola quando estava a passar a semana em revista. Mas há mais para além do assunto estrela: da Madeira ao Chile, da economia à política, o menú não é muito variado mas também não é prato único. O doutor Jardim continua a ter espaço privilegiado neste blog, eu que costumo ignorar a personagem.
O jardim do Jardim. O pior das notícias que vieram da Madeira foi saber quer era um desastre evitável e o aproveitamento feito por todo o político que teve direito de antena. No Haiti um terramoto de magnitude 7 na escala de Richter causou mais de 200 mil mortos. Ontem, um terramoto de magnitude 8.8 deixou uma factura de 700 mortes, apesar do número vir provavelmente a aumentar. A diferença de magnitude das vítimas dos dois desastres é de tal forma monstruosa que ninguém pode reclamar que os dois fenómenos não são compraráveis. Eles são comparáveis pelo menos num aspecto – o incorrecto planeamento do território amplia de forma animalesca qualquer desastre natural, ou alguém acredita que se a arquitectura e planeamento chilenos fossem semelhantes aos da ilha das Caraíbas o saldo não tinha sido ainda mais devastador? E é por causa disto que o desastre da Madeira é revoltante, porque aparentemente alguém assobiou para o lado quando os especialistas avisaram que havia erros de planeamento a corrigir. Mas de repente a malta começou a dizer que o doutor Jardim é um estadista. Mentira! Continua a ser o mesmo déspota populista que, quando confrontado com a realidade dos estudos, não duvidou em responder com insultos sem proferir um argumento válido para refutar as acusações de quem diz que o desastre podia ter sido evitado. Suponho que seja isto um estadista à moda da casa.
Cubanos. Duas semanas antes o doutor Jardim desdenhava dos sicilianos, isto depois de vezes sem conta ter orgulhosamente declarado que podia ser independente do continente onde estão os cubanos, os tiranos, entre outras pérolas. Claro que, quando a desgraça bateu à porta, o doutor Jardim veio pedir ajuda aos cubanos e os cubanos vieram ajoelhar-se aos pés do doutor Jardim a pedir perdão pelos pecados passados. Foi uma triste procissão a das declarações de imprensa de todos os políticos que tiveram direito a um microfone e que, de repente, eram os melhores amigos da Madeira. Deixem falar as vítimas e trabalhar quem as socorre. Tudo o resto está a mais.
A porcaria. Há momentos na nossa vida em que olhamos à nossa volta e só nos apetece desligar o botão e começar de novo. Já não é sequer virar a página, é atirar o caderno ao lixo e começar um novo. Ou, como diria o nosso seleccionador, varrer a porcaria. Eu não gosto muito de varrer porque levanta pó e o varrer só é eficaz se a porcaria for atirada ao lixo – varrer para debaixo do tapete não vale de nada. Quando olho para estas últimas semanas e ouço as histórias que saem nos jornais sobre tudo o que envolve a vida política em Portugal, a única vontade que tenho é essa, varrer a porcaria para bem longe. Tudo cheira a podre, a desonestidade, a esquema, a corrupção. Cada audiência no parlamento é um manual de filhaputice, de manobras de bastidores e, como é óbvio, ninguém hoje sabe quem diz verdade e quem não porque o que todos sabemos é que toda a gente tem algo a ganhar e muito a perder com tudo isto: o PM com o polvo às costas, o PR com as eleições à perna, o PSD com eleições internas, a oposição que quer deitar abaixo o PM, o PGR que quer conservar o posto, os jornalistas que querem passar a imagem dos coitadinhos, os tachistas que querem manter o tacho. Se me conseguirem indicar quem, no meio desta gente toda que tem falado sobre o assunto, diz somente a verdade acima de qualquer suspeita, eu agradecia porque facilitava-me a vida. Acho que isto só vai lá com a mais clássica das soluções informáticas: desliga e volta a ligar. Costuma funcionar com as máquinas.
À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta. Caio Júlio César não foi propriamente um exemplo de virtudes, mas entre um império e algumas lições militares, deixou também algumas lições políticas, a mais famosa das quais a que resultou no divórcio da sua então mulher Pompeia. Pompeia foi considerada responsável por um sacrilégio no qual o próprio César reconheceu que ela pouco poderia ter feito. Mas César contrapôs com a frase que ficou para a história. César, como é fácil de adivinhar, não era estúpido, e aquilo que ele queria evitar era, numa altura em que a política em Roma era tudo menos estável, ter uma distracção com que se preocupar. E este é o problema com que se debate hoje em dia o nosso PR. Está claro que, independentemente desta raça de políticos ser ou não séria, não parece. Duvido que hoje alguém ponha as mãos no fogo pelo PM, PGR, ou mesmo até por uma boa parte da oposição. O problema não é o descrétido dos políticos mas as consequências que isso arrasta para o sistema político em geral. Quem é que hoje acredita que o parlamento é um lugar onde se trabalha para resolver os problemas do país? Quem é que acredita que o governo é um conjunto de funcionários bem qualificados para as funções que ocupam, preocupados unicamente com o desenvolvimento do país? Quem acredita que o PGR é uma garantia de que, em Portugal, ninguém pode cometer um crime e passar incólume sem uma acusação? Se ao leme do país estivesse César, alguém duvida de qual seria a solução?
The economy, stupid. O involuntário slogan do chefe de campanha de Bill Clinton em 1992 soou com estrondo na minha cabeça quando li, há uns dias atrás, as três primeiras notícias da secção de economia do público. Como já aqui disse, eu só leio títulos e aqui está um bom exemplo de como não vale a pena ler o conteúdo. Eis os 3 títulos que foram publicados em questão de horas:
- Retoma está a perder força em Portugal e no resto da Europa
- Salários congelados nas empresas públicas mas TAP e CGD podem ser excepção
- PSI 20 abriu a subir 0,57 por cento
Sobre isto só posso dizer o seguinte:
- Quem negoceia em bolsa deve ter um jornal económico diferente do meu ou ver muito à frente
- O facto da TAP querer ser uma excepção ao corte de salários diz muito da forma como são geridas as empresas públicas, em particular um buraco como a TAP
February 20th, 2010 | Author: hugorila |
Mais uma semana, mais uma revista.
Jardim Siciliano. A rábula da semana veio horas após eu ter publicado o último post. Ainda pensei em escrever um post scriptum mas, porque o conteúdo era demasiado rico, acabei por deixar para a abertura desta semana. Na sexta-feira passada o Alberto João Jardim veio comparar Portugal à Sicília. Cada linha das declarações é melhor do que a outra. Há para todos os gostos. O separatista, “o que se passa na Sicília Hispânica é problema daquela gente”, digo eu desde que esses proscritos continuem a transferir fundos para a república das bananas do Alberto João. O democrata, “Este país precisa de disciplina democrática (…) depois de tudo o que se passou, em Inglaterra o partido do poder continuava no poder mas tinha mudado o primeiro-ministro. E é assim que se faz nos países democráticos”. Obviamente, de cultura democrática sabe o Alberto João que há anos que usa o aparelho do Estado para se eternizar no poder, folhetim de regime incluído já que estamos a falar de liberdade de expressão e ingerência em orgãos de comunicação social. Quero pensar que, para o presidente Jardim, a melhor forma de evitar ser acusado de ingerência é declaradamente assumir propriedade dos orgãos de comunicação social. E continua o Alberto João com “eu gostava é que aparecesse o senhor Jesus Cristo para meter juízo a estes tipos todos”. Quê?!?!?!? O senhor Jesus Cristo, que ao contrário do doutor Jardim, nunca tirou licenciatura, devia era distribuir uns pães daqueles que ele sabe multiplicar porque com a boca cheia esta malta pelo menos estava calada, que eu já não os posso é ouvir. Para resumir, que isto já vai longo, para lições de democracia e liberdade de expressão, falem com o Alberto João. A única coisa que o homem disse acertadamente foi “cada povo tem aquilo que merece”, imagino que o da Madeira também.
Constâncio no BCE. Outra notícia relevante da semana foi a nomeação de Vítor Constâncio para uma das vice-presidências do Banco Central Europeu. Quando algo deste género acontece há sempre uma malta que se põe em bicos de pés, e como o Constâncio não se pôs, o Sócrates não quis deixar passar a oportunidade. Foi uma vitória da democracia Portuguesa, disse ele. Os jornais nacionais, aliás tal como os internacionais, dizem que foi a pressão da Alemanha porque, com um PIGS* no BCE, é quase garantido que o próximo governador do BCE será o alemão Weber e não o italiano Draghi. Humm, deixa-me pensar em quem devo acreditar. No Sócrates e no extraordinário mérito da diplomacia portuguesa, ou nos jornais e no poder específico da Alemanha na UE? Diga-se de passagem que, para todos os efeitos, e apesar do Weber ser um mau governador obcecado com o combate à inflação, é melhor que ter lá o Draghi que tem as mãos sujas em toda a tramóia da Grécia enquanto vice-chairman da Goldman Sachs. Pelo menos o Constâncio manteve a decência ao afirmar que para estes lugares as pessoas não são nomeadas tanto pelo mérito individual como pelas implicações políticas.
Directas no PSD. O PSD vai eleger um novo líder, para aí o vigésimo dos últimos 10 anos. O PSD é o Benfica do nosso futebol. Dinheiro a rodos, queimam treinadores como quem come tremoços e no final ganha o Porto (ou talvez o Braga, vamos ver). E isto tem ainda mais piada quando olhamos para os candidatos, pelo menos no PSD parece que são sempre tirados das anedotas da minha infância. Está um inglês, um francês e um português… No PSD temos sempre o gajo do aparelho e da continuidade (Aguiar Branco), o rebelde (Passos Coelho) e o apolítico (Rangel), que só pelo facto de ter apenas um apelido já se pode afirmar como um gajo que nem sabe bem o que é a política e se candidata a um cargo político contra os políticos. É assim como dizer que eu quero ser jogador de futebol porque só quero jogar ténis. Prevejo que antes do fim da época haja nova chicotada e mais umas directas. Quem esfrega as mãos é, naturalmente, o Portas. O Sócrates não esfrega as mãos porque, como todos sabemos, um polvo tem tentáculos e não mãos.
Quatro vezes dez por cento. Termino com dois números, porque foi assim que me ensinaram nos cursos de comunicação. Na semana em que Portugal atingiu os 10% de desemprego, soubemos que os nacionalizados portugueses quadruplicaram nos últimos anos. Eu, se fosse ao Sócrates, saía de cena, metia um desses nacionalizados como relações públicas e deixava-o falar livremente. Esses gajos só podem estar a ver um jardim luxuriante onde todos os outros vêem um monte de merda. Pelo menos podia ser que o país ganhasse em auto-estima, ou então que ficássemos como a Madeira, que diz o Alberto João que é um paraíso na terra.
February 12th, 2010 | Author: hugorila |
Segunda revista da semana, e que semana! O prato do dia é, como não podia deixar de ser, polvo. Fresquíssimo, cozinhado à moda da casa como só nós sabemos. Mas temos mais pratos disponíveis no menu.
Polvo à Portuguesa. Como eu estou a ficar velho, já posso usar a expressão “os mais jovens provavelmente não se lembram disto” mas o Polvo original que o Sol plagiou é a máfia italiana. A alcunha foi tornada famosa pela óptima série italiana La Piovra dos anos 80 em que um comissário tentava sem sucesso destruir a máfia siciliana. O polvo à portuguesa não mata ninguém e vendo aquilo de que é capaz eu diria mesmo que ou é um polvinho pequeno, daqueles que não dá para filetes, ou então já alguém lhe arrancou tentáculos. Porque vamos pôr os factos na mesa. A imprensa está a acusar o governo de ser um polvo do jornalismo. Espera aí, deixa-me ler de novo a última frase. O governo está a ser denunciado pela imprensa que o próprio governo domina com os seus poderosos tentáculos. Humm… que polvo este! Mas o plano era genial. O governo ia comprar a TVI, Público e a Cofina mas esta só porque tinha que ser. Espera aí, só porque tinha que ser? É que senão a malta desconfiava. Tipo, humm… o governo comprou a TVI e o Público e deixou a Cofina de fora? Isto cheira a esturro…
Justiça à lagareiro. O meu saco de boxe preferido volta à ribalta pelas razões e argumentos de sempre. O circo a que se tem assistido tem uma génese – um sistema de justiça falhado. Num Estado de direito, um juiz não pode emitir opiniões baseadas em escutas legais ou não, um político acusado de censura tem que ser acusado e considerado culpado ou inocente, os jornais não podem sistematicamente publicar factos em segredo de justiça, os jornalistas não podem andar por aí a acusar malta sem sofrerem consequências. Isto são só uns poucos aspectos que me vêm à cabeça sem pensar muito. Num Estado de direito o circo desta semana era um caso de justiça já resolvido há muito tempo. Como a justiça não funciona para ninguém, toda a gente se julga no direito de a fazer por suas próprias mãos. O resultado é um ambiente podre. Eu nunca tive que viver com alguém que me enganou e eu perdoei mas imagino que seria algo como o ambiente que se vive hoje no nosso jardim.
Espuma de demissão de sócrates em redução de cavaco. É óbvio que o primeiro ministro não tem condições para se manter no cargo. PM para a rua por incompetência. Quis comprar a TVI e não conseguiu, quer controlar o DN mas os gajos continuam a publicar factos inconvenientes, o Sol e o Público é que se vê, controla o Oliveirinha a ver se o Benfica ganha alguma coisa e vem o Braga e põe-se primeiro. Senhor primeiro ministro, o seu polvo só em bom para tapas, frito e comido de uma dentada. Tenho uma coisa clara. O PM devia propor-se aumentar a despesa e o défice amanhã e levar este país para o buraco. Com a competência com que ele trata estes dossiers, era da forma que Portugal resolvia os problemas com que se debate há anos. Já agora uma pequena nota. Aqui há uns anos o PR demitiu o PM por incompetência e largamente apoiado pela imprensa, agora ninguém diz que o PR tem que demitir este PM por razões muito mais graves. Adoro a coerência da nossa imprensa. E entretanto o PR está caladinho a ver se ninguém se dá conta dele antes das eleições. Para ter um fantoche podíamos lá pôr alguém que pelo menos dissesse umas piadas ou então uma gaja boa.
Filetes de imprensa com arroz do mesmo. Vamos aos factos. Os factos dizem que o governo controla a PT e indirectamente dois canais de TV minoritários (já lá vai o tempo), dois jornais de grande tiragem, uns canais da bola e uns canais de rádio. Os factos também dizem que um canal de TV é controlado por um tipo do PSD, um dos diários mais relevantes (Público) é controlado por alguém que não vai à bola com este PM nem que ele leve as jolas e os amendoins, e um dos semanários de altos decibéis acaba de expor a grande trama. Outro facto diz que o Crespo acusa este governo de censura porque alguém, que não sabemos quem, ouviu uma conversa num restaurante. Claramente estes senhores têm que deixar de fazer negócios em locais públicos, eis um bom argumento para aprender a cozinhar. Se o PM tivesse convidado o Nuno Santos para um jantar lá em casa o Crespo não tinha sabido de nada. Por certo, é preciso esclarecer que o polvo pode ter poucos tentáculos mas um deles é longo e já vai em Espanha porque, se bem se lembram, o principal accionista da TVI era a Prisa. Este PM é manhoso. Os factos também dizem que tudo isto se desenrolou em Agosto, antes das eleições, e só meio ano depois é que rebentou. Tudo por causa de uma conversa de restaurante que os amigos do Crespo ouviram. E os factos dizem ainda que o masterplan do governo incluía ver-se livre do Moniz para… ele depois regressar num cargo de maior responsabilidade. Se o nosso polvo fosse só cozido com batatas não tinha metade da piada.
Vasconcelos raspado com muito molho. Este é o nosso prato para clientes que procuram máximo valor. Usamos partes menos nobres do polvo mas que picadinhas e com muito molho até parece filetes. Já passaram uns anos mas aquando da OPA da Sonae à PT eu escrevi noutro fórum sobre este desconhecido que de repente assumiu uma posição de enorme reklevância ness processo. Alguém que ninguém conhecia, vestia bem e usava generosas camadas de gel no cabelo de repente vinha para as luzes da ribalta. Na altura eu questionei-me sobre quem era este personagem, de onde tinha saído e quais eram os seus interesses. Continuo sem resposta cabal para a última questão mas é curioso que este senhor desde então tem vindo a assumir uma posição relevante em várias empresas de grande dimensão e, como toda a gente sabe, o dinheiro não cai do céu e este padrão de comportamento já se viu noutros lados com consequências não muito tranquilizadoras. Por certo, na ficha biográfica que a PT publica pode-se ler que o Vasconcelos se licenciou no Curry College em Boston. Eu, que vivi uns anos em Boston e tive contacto com muitíssimas universidades mais e menos conhecidas, nunca ouvi falar da Universidade do Caril.
É este o menu da semana. Eu não vou tomar posição nesta trama porque os factos são manhosos e as fontes duvidosas. Fico-me pela segunda opção do menu porque tenho especial apreço pelo lagareiro e porque, se a nossa justiça funcionasse, este menu não existia.
February 6th, 2010 | Author: hugorila |
Tomei uma resolução antes de escrever este post com o objectivo de me obrigar a ser um pouco mais regular na minha escrita. A partir desta semana, e aproveitando os tempos mortos no aeroporto às sextas-feiras, vou tentar escrever um post de reflexão semanal baseado nos factos da semana.
A presa do mercado. Como não podia deixar de ser, esta primeira reflexão não pode ignorar a grande notícia da semana. Quem nos deu a notícia foi o ministro das finanças, uma pessoa que eu respeito desde os tempos em que foi meu professor de macro-economia, mas que tem mostrado que, ou está demasiado embrenhado no trabalho ou perdeu o senso comum. Portugal é a nova presa do mercado. Já quisera Portugal que os investidores internacionais olhassem para o país, como presa que fosse. A resposta foi dada pela bolsa lusa no dia seguinte e tudo não passou de um susto. Os compadres de sempre não perceberam bem o que o Almunia disse mas veio o ministro e tranquilizou as tropas. A bolsa voltou ao normal e estamos todos felizes. E os investidores internacionais? De certeza que estavam à frente da TV a ouvir o ministro e ficaram também muito mais tranquilos. Daí a resposta do mercado. Só pode ser.
O investidor internacional. Hoje em dia eu sou, em Portugal, um investidor internacional para todos os efeitos. Como investidor internacional que lê o jornal, este foi o paraíso que eu pude ler durante a semana. Na segunda o governo anda preocupado com limpar um jornalista da cena mediática. Na terça o mesmo governo quer combater a corrupção tornando públicas as declarações fiscais dos contribuintes. Eu não costumo concordar muito com o Louçã mas desta vez o homem acertou quando disse que a medida era pura coscuvilhice fiscal. Na quarta sabemos que o ministro das finanças se quer demitir por causa de uma lei que vai aumentar o endividamento externo em 50 milhões de euros. E na quinta o mesmo ministro mostra surpresa e repúdio por os mercados internacionais compararem Portugal com a Grécia. O ministro não deve ler jornais ou até os próprios emails, só assim se pode justificar a surpresa.
Quanto vale 1 milhão? Na quinta soubemos também que o valor de 1 milhão depende de como se olha para ele. O ministro devia ter-se demitido no momento em que o considerou uma opção porque se acha que 50 milhões de euros são motivo para isso, e eu não questiono que a nova lei das finanças regionais seja péssima, 250 milhões de euros são cinco vezes mais motivo para uma demissão. E 250 milhões de euros foi o erro de cálculo que o ministério das finanças cometeu quando calculou o défice na rectificação do orçamento. Mas agora sabemos que 250 milhões não são importantes mas 50 podem ser cruciais. Tudo depende de quem olha para eles. Isto, obviamente, inclui a oposição que acha que 50 milhões de dívida e 40 de transferências são negligenciáveis. Provavelmente acha um escândalo se o ministro se enganar em 50 milhões.
Portugal e a Grécia. Em casa onde não há pão, toda a gente ralha e ninguém tem razão. Este ditado cai quem nem uma luva na questão da comparação de Portugal, Grécia e Espanha. Aqui o problema já não é que não há pão, é que andamos a comer o pão do vizinho. O ministro diz que não somos comparáveis e tem razão. A Grécia tem 12% de défice, mais de 100% de dívida e andou a esconder números negativos. E Portugal? Muito melhor. 10% de défice, 76% de dívida mas não andamos a esconder números, só nos enganamos de vez em quando, assim em 1% e tal. Mas ninguém se demite porque somos todos de bons costumes.
O desporto. Termino com uma pincelada de desporto porque achei que a semana desportiva era a cereja em cima do bolo na república das bananas. Segundo percebi, o túnel do estádio do Benfica é pródigo em acontecimentos estranhos. Há uns seguranças que provocam jogadores, dirigentes à bofetada, jogadores ao pontapé e uns quantos ficam suspensos preventivamente. A malta da disciplina actua diligentemente e diz que quer tomar uma decisão rápida, tipo 3 meses. É a celeridade da justiça portuguesa que já foi comentada neste blog. Depois há mais uns incidentes com uns jogadores do Braga, mais suspensões. E finalmente agora o Benfica diz que o Sporting lhe deve qualquer coisa, o outro diz que é mentira. E vamos nisto até ao Mundial que, obviamente, é para ganhar.
Como diria um investidor internacional, “it’s a Banana Republic”. E depois o ministro acha estranho.
Acho que para primeira revista da semana, não está nada mal. Temo que as próximas semanas não sejam tão animadas, o que é pena.
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