The Banana Republic

Tomei uma resolução antes de escrever este post com o objectivo de me obrigar a ser um pouco mais regular na minha escrita. A partir desta semana, e aproveitando os tempos mortos no aeroporto às sextas-feiras, vou tentar escrever um post de reflexão semanal baseado nos factos da semana.

A presa do mercado. Como não podia deixar de ser, esta primeira reflexão não pode ignorar a grande notícia da semana. Quem nos deu a notícia foi o ministro das finanças, uma pessoa que eu respeito desde os tempos em que foi meu professor de macro-economia, mas que tem mostrado que, ou está demasiado embrenhado no trabalho ou perdeu o senso comum. Portugal é a nova presa do mercado. Já quisera Portugal que os investidores internacionais olhassem para o país, como presa que fosse. A resposta foi dada pela bolsa lusa no dia seguinte e tudo não passou de um susto. Os compadres de sempre não perceberam bem o que o Almunia disse mas veio o ministro e tranquilizou as tropas. A bolsa voltou ao normal e estamos todos felizes. E os investidores internacionais? De certeza que estavam à frente da TV a ouvir o ministro e ficaram também muito mais tranquilos. Daí a resposta do mercado. Só pode ser.

O investidor internacional. Hoje em dia eu sou, em Portugal, um investidor internacional para todos os efeitos. Como investidor internacional que lê o jornal, este foi o paraíso que eu pude ler durante a semana. Na segunda o governo anda preocupado com limpar um jornalista da cena mediática. Na terça o mesmo governo quer combater a corrupção tornando públicas as declarações fiscais dos contribuintes. Eu não costumo concordar muito com o Louçã mas desta vez o homem acertou quando disse que a medida era pura coscuvilhice fiscal. Na quarta sabemos que o ministro das finanças se quer demitir por causa de uma lei que vai aumentar o endividamento externo em 50 milhões de euros. E na quinta o mesmo ministro mostra surpresa e repúdio por os mercados internacionais compararem Portugal com a Grécia. O ministro não deve ler jornais ou até os próprios emails, só assim se pode justificar a surpresa.

Quanto vale 1 milhão? Na quinta soubemos também que o valor de 1 milhão depende de como se olha para ele. O ministro devia ter-se demitido no momento em que o considerou uma opção porque se acha que 50 milhões de euros são motivo para isso, e eu não questiono que a nova lei das finanças regionais seja péssima, 250 milhões de euros são cinco vezes mais motivo para uma demissão. E 250 milhões de euros foi o erro de cálculo que o ministério das finanças cometeu quando calculou o défice na rectificação do orçamento. Mas agora sabemos que 250 milhões não são importantes mas 50 podem ser cruciais. Tudo depende de quem olha para eles. Isto, obviamente, inclui a oposição que acha que 50 milhões de dívida e 40 de transferências são negligenciáveis. Provavelmente acha um escândalo se o ministro se enganar em 50 milhões.

Portugal e a Grécia. Em casa onde não há pão, toda a gente ralha e ninguém tem razão. Este ditado cai quem nem uma luva na questão da comparação de Portugal, Grécia e Espanha. Aqui o problema já não é que não há pão, é que andamos a comer o pão do vizinho. O ministro diz que não somos comparáveis e tem razão. A Grécia tem 12% de défice, mais de 100% de dívida e andou a esconder números negativos. E Portugal? Muito melhor. 10% de défice, 76% de dívida mas não andamos a esconder números, só nos enganamos de vez em quando, assim em 1% e tal. Mas ninguém se demite porque somos todos de bons costumes.

O desporto. Termino com uma pincelada de desporto porque achei que a semana desportiva era a cereja em cima do bolo na república das bananas. Segundo percebi, o túnel do estádio do Benfica é pródigo em acontecimentos estranhos. Há uns seguranças que provocam jogadores, dirigentes à bofetada, jogadores ao pontapé e uns quantos ficam suspensos preventivamente. A malta da disciplina actua diligentemente e diz que quer tomar uma decisão rápida, tipo 3 meses. É a celeridade da justiça portuguesa que já foi comentada neste blog. Depois há mais uns incidentes com uns jogadores do Braga, mais suspensões. E finalmente agora o Benfica diz que o Sporting lhe deve qualquer coisa, o outro diz que é mentira. E vamos nisto até ao Mundial que, obviamente, é para ganhar.

Como diria um investidor internacional, “it’s a Banana Republic”. E depois o ministro acha estranho.

Acho que para primeira revista da semana, não está nada mal. Temo que as próximas semanas não sejam tão animadas, o que é pena.

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