Quem anda com o nariz enfiado na relva, mais cedo ou mais tarde bate com a cabeça na árvore. Não sei bem quem é o autor desta frase mas vem mesmo a calhar a propósito da recente polémica sobre a Red Bull Air Race e as reacções acesas de vários portuenses, amigos e não amigos.
Há vários anos que aqueles com responsabilidade política no Porto se têm entretido com guerrinhas e pequenas vitórias que reflectem a falta, não só de uma perspectiva de longo prazo para a cidade, como também de uma visão do todo, ou seja, da árvore e não apenas da relva.
O problema da excessiva centralização de poder em Lisboa é real e, como já aqui disse em Setembro quando apresentei o meu “programa de governo”, preocupa-me muito mais pelo que representa para o desenvolvimento do país do que pela sorte de uma região ou cidade. Mas a descentralização tem que ser defendida com cabeça e com uma estratégia, e isso tem faltado ao país e ao Porto em particular.
Eu dou um exemplo bem claro daquilo que estou a falar. Há uns anos atrás a Ryanair inaugurou uma rota para o Porto e foi ouvir-se um coro de elogios às vantagens que isso traria para a cidade. Mais recentemente a Ryanair foi mais longe e fez do Porto um dos seus hubs, o que basicamente permite que o Porto seja ponto de partida de rotas dado que os aviões podem estacionar aí, abrindo entre outras alternativas, a possibilidade de começar a realizar voos domésticos (diz-se). Esta decisão foi aplaudida por toda a gente que eu ouvi e foi até precedida de abaixo-assinados (que, como toda a gente sabe, são sempre úteis e ouvidos pelo decisores).
As consequências desta estratégia genial são já visíveis. Agora o Porto tem ligações a Stansted, Girona, Beauvais, Bergamo ou Frankfurt Hahn, mas perdeu todos voos da Air France, KLM e British Airways. Dos 5 voos diários que eu me lembro existirem da Lufthansa para Frankfurt restam três e o resto das ligações a hubs internacionais são monopólio da TAP, que está longe de ser uma companhia global como deve ser. Imagino que a Iberia se seguirá a menos que haja algum tipo de obrigação contratual. O resultado prático é simples, quem quer voar para o Porto em negócios ou voa em horários e para aeroportos inconvenientes com a Ryanair que normalmente obrigam a passar uma noite na cidade, ou voa com a TAP… ou voa para Lisboa. Eu sinto-o na pele porque desde que vivo nos Estados Unidos só por uma vez consegui viajar directamente para o Porto, não importa qual seja a minha cidade de origem: Nova York, Boston, San Francisco. Na verdade duas vezes contando com esta precisa viagem durante a qual escrevo este post, mas para isso foi preciso perder dois voos para Lisboa e atravessar Paris de Norte a Sul (CDG para Orly) para apanhar o voo da TAP. Convido-o para um “faça você mesmo”, tente reservar um voo de qualquer cidade do mundo para o Porto e verá os resultados.
É a isto que se chama “enfiar o nariz na relva”. Não sei quem são os responsáveis por estas decisões mas sei que a ANA ainda é uma empresa pública e também sei que quando se decidiu escancarar as portas do aeroporto do Porto à Ryanair ninguém se queixou como agora se queixaram porque perderam uma corrida para Lisboa. Ter um aeroporto internacional (quando eu digo internacional é com ligações a aeroportos de primeira linha) é apenas um exemplo de um aspecto de uma possível estratégia para o Porto. Mas que estratégia existe actualmente? Realmente alguém pensa que o Porto pode ser um centro turístico? Porque é disso que falamos quando trazemos low cost e corridas da Red Bull, falamos de turismo.
Portanto, antes de entrar em guerrinhas sobre corridas de aviões, alguém devia pensar que estratégia querem para desenvolver o Porto. Até porque com uma estratégia na mão é melhor argumentar com o governo central.

