March 15th, 2010 | Author: hugorila |
Not in my backyard. Na semana que passou foi apresentado o PEC, Plano de Estabilidade e Crescimento. Eu não quem baptizou estes planos mas, olhando para as economias portuguesa e europeia na última década, há que reconhecer que tem sentido de humor. As reacções nas últimas semanas ao anunciado PEC revelam a essência da natureza humana a que os ingleses alcunharam de NIMBY, ou seja, not in my backyard. O caso é frequente, toda a gente quer um Estado mais leve, mais eficiente e que cobre menos impostos, mas quando confrontados com medidas concretas para reduzir a carga fiscal e o peso do Estado na economia, quase ninguém as apoia. E como na política escasseiam personagens que, como se diz em bom português, os têm grandes e no sítio, estes PEC continuam a ser uma farsa. É por causa do sídrome NIMBY que o PSD passa um mês a criar comissões de inquérito e a deitar as mãos à cabeça pela liberdade de expressão e na primeira oportunidade de que dispõe, dá mostras ao país de como se trata o assunto no partido – com expulsão. E é também por causa do NIMBY que toda a gente aprova o PEC mas depois exige mais milhões para as regiões autónomas, ou autarquias, ou vá-se lá saber que mais. Todos os sacrifícios soam bem desde que não afectem o meu mundinho.
Cavaquês. Quando na semana passada fiz o paralelo entre o futebol e a política não podia imaginar que o PR iria dar uma grande entrevista em grande estilo, e o melhor estilo de Cavaco Silva é muito semelhante ao do treinador Octávio Machado nos seus tempos áureos. Se repararem, o cavaquês do PR parece português mas não é bem. Porque quando alguém fala português a gente entende e quando o PR fala em cavaquês a malta intui o que ele quer dizer mas ninguém realmente tem a certeza do que ele está a falar. Aliás, tal como acontecia quando Octávio Machado falava e algo não muito diferente do que quando os bebés começam a falar e as mães parecem entender tudo. É mais fachada do que outra coisa, ninguém entende nada mas não queremos dar parte de fraco e por isso tentamos intuir. E parece consensual intuir que o PR acha que o PM é mentiroso e que, como consequência, se deveria demitir. E intuimos também que ele se vai recandidatar e, a menos que o ameacem de partir uma perna, ele não vai dissolver o parlamento. Mas vá-se lá saber se o que nós intuimos é mesmo o que ele quer dizer, porque o cavaquês é uma língua unipessoal.
O supérfluo da cultura. Vem em letras pequeninas no jornal mas a sua relevância extravasa a pequenez do facto relatado. Na Câmara de Torres Vedras gerou-se uma algazarra porque o presidente assinou a aquisição de uma obra de arte pela qual a autarquia vai pagar 150 mil euros. Diz a oposição que a despesa é supérflua no actual contexto de crise. Claro que a oposição não considera supérflua os 5 milhões de euros que o ministro das finanças apelidou, e bem, de money for the boys. E seguramente a oposição não acha supérflua a despesa em rotundas e embelezamentos semelhantes que todos os anos vemos ser eregidos nas imediações de quaisquer paços de concelho que se prezem. E não considerará supérfluos ainda os milhões gastos em representação e outras metáforas do género com que as autarquias nos brindam todos os anos para justificar um abuso visível do erário público. Mas como falamos de cultura, 150 mil euros é uma despesa supérflua, porque à boa moda salazarista, quanto mais ignorante for o povo mais fácil é governar.
March 10th, 2010 | Author: hugorila |
Alguém devia dizer aos senhores do PSD que, em álgebra, a soma de vários zeros não dá nenhum número positivo, e fora da álgebra às vezes ainda dá soma negativa. Na semana que passou aconteceram os debates sociais democratas. Mas mesmo antes dos debates acontecerem, os candidatos tiveram tempo para dar entrevistas, escrever nos seus sites pessoais e até blogues e twitter, e dizer o que lhes passava pela cabeça com toda a calma e sem precisar de elevar o tom de voz. E qual foi o resultado? Fraquinho… Perante o deserto de ideias de qualquer dos candidatos, ficamos com chavões – ruptura, aparelho, reforma.
A bola e a politica. Há já algum tempo que venho pensando que a política cada vez se parece mais com o desporto. Como eu sou desta equipa, não gosto da outra equipa e se for preciso até insulto os adeptos do rival. Não interessa quão (ir)racional o meu argumento seja, ou até o que é que o outro está a dizer, importa é saber se é da minha equipa ou contra a minha equipa. Esta dicotomia não acontece apenas em Portugal, longe disso. Antes, tenho visto esta tendência em vários países onde há tradição de governo em alternância, com dois partidos dominadores que se vão alternando no poder e que têm o hábito de governar em maioria absoluta ou confortável – Espanha, Reino Unido, Estados Unidos, entre outros. Ninguém precisa de falar a sério com ninguém, excepto para dirigir alguns insultos ou piadas de mau gosto, ou seja, ao melhor estilo da bola.
Os media e a bola. Se pensarmos bem, o mundo dabola (e falo de futebol porque em Portugal é o desporto por excelência) sofreu uma mudança radical nos últimos 20 anos, em grande parte por culpa da televisão e da febre mediática que assaltou o nosso mundo. Nos anos 80 e parte dos 90 os jogadores eram quase todos broncos, sem escolaridade e mal sabiam falar. Claro que, se para alguém com o dom da palavra, falar à frente de uma câmara é complicado, para alguém iletrado é um desastre. E eu assisti durante anos a pérolas memoráveis dos jogadores da bola. Mas há algo que tenho que reconhecer aos jogadores de então, e é que eles sabiam do que falavam e tentavam-no expressar o melhor que podiam. E, quando decifrado, nós sabíamos que às vezes se marcam golos com sorte (“marquei com o pé que estava mais à mão”), que o mundo da bola é uma máfia (“vocês sabem do que é que eu estou a falar”) e que, no fundo, este desporto tem muito de individualismo (“só existem três coisas que param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá”). Nos 90 a televisão chegou em peso ao futebol, os jogadores começaram a ser estrelas e também a ser mais conscientes da sua imagem no ecrã. E qual foi o resultado? O vazio. Hoje, quando um jogador fala já não diz bacoradas, já fala com boa gramática e sem erros ortográficos, mas não é capaz de expressar uma só ideia. Tudo soa mais ou menos assim “O que importa não é o meu golo mas os 3 pontos e ajudar a equipa a conquistar títulos, não o teria conseguido se não fossem os meus companheiros, agora temos que pensar no próximo jogo e vamos encarar cada jornada como se fosse uma final e não quero falar do árbitro porque ele fez o trabalho dele e nós o nosso” [respirar]. Quem diz jogadores, diz treinadores e presidentes. O mediatismo destruiu a espontaneidade e com ela qualquer ponta de originalidade.
A política e a bola. Por coincidência ou não, com esta vaga de jogadores estrela com discursos mecanizados, surgiu uma geração de políticos com características muito idênticas. Preocupação com a imagem, com uma trupe de assessores de topo o tipo, com um discurso eficiente, mecânico e extremamente estudado. Em comum com os jogadores da bola têm uma coisa: um relações públicas ou RP – e não falo dos inúteis que se passeiam por este mundo a apresentar-se como RP de coisa nenhuma, falo de RP de profissão. Os RPs servem para mecanizar discursos, evitar gafes e embaraços e, em última análise, problemas. Para tal têm uma regra de ouro, que o meu último RP me repetiu até à saciedade: quando não sabes o que responder, dizes “não comento”. Simples. E graças aos RP, temos hoje na bola como na política uma geração “não comento” que raramente se engana e nunca tem dúvidas. E trago à memória esta grande citação do nosso agora PR, provavelmente a última grande gafe deste senhor, porque ele é talvez a face mais visível da transformação da política na era da TV. Ver o Cavaco Silva no final dos anos 80 e no final dos 90 é quase como ver o João Pinto capitão do FCP transformar-se no Cristiano Ronaldo dos nossos dias. A base é a mesma, o RP é que não.
À bola o que é da bola. Infelizmente, há uma diferença de vulto entre os jogadores e os políticos. Os primeiros são pagos para jogar e o que eles dizem importa pouco para a essência do espectáculo, os segundos são eleitos para governar e o que eles dizem reflecte-se no que fazem. E assim passámos dos políticos dos 80, que cometiam gafes, atropelavam-se nos debates e perdiam as estribeiras em público, aos políticos de hoje que debatem com tempo cronometrado, sem direito a interrupções, num espectáculo que faz do curling um desporto de emoções fortes. E o problema é que passámos também de políticos com visão de futuro e de governação, capazes de expressar ideias independentemente da sua bondade televisiva, a políticos que hoje soam assim “vou lutar por um país mais desenvolvido, mais igualitário, através de um conjunto de reformas na justiça e na educação, por via da desburocratização do aparelho do Estado, por forma a garantir maior transparência das contas públicas e assim vencer o desafio da modernidade”. A maior diferença é que os jogadores já aprenderam a não falar do árbitro mas os políticos ainda insultam a oposição, interna ou externa.
March 2nd, 2010 | Author: hugorila |
Em 1993 Portugal perdia em Itália o derradeiro jogo de qualificação para o mundial, falhando a qualificação e no final do jogo o então e hoje seleccionador deixou uma pérola para as hemerotecas: “É preciso varrer a porcaria que vai na federação”. Passados todos estes anos, lembrei’me dessa pérola quando estava a passar a semana em revista. Mas há mais para além do assunto estrela: da Madeira ao Chile, da economia à política, o menú não é muito variado mas também não é prato único. O doutor Jardim continua a ter espaço privilegiado neste blog, eu que costumo ignorar a personagem.
O jardim do Jardim. O pior das notícias que vieram da Madeira foi saber quer era um desastre evitável e o aproveitamento feito por todo o político que teve direito de antena. No Haiti um terramoto de magnitude 7 na escala de Richter causou mais de 200 mil mortos. Ontem, um terramoto de magnitude 8.8 deixou uma factura de 700 mortes, apesar do número vir provavelmente a aumentar. A diferença de magnitude das vítimas dos dois desastres é de tal forma monstruosa que ninguém pode reclamar que os dois fenómenos não são compraráveis. Eles são comparáveis pelo menos num aspecto – o incorrecto planeamento do território amplia de forma animalesca qualquer desastre natural, ou alguém acredita que se a arquitectura e planeamento chilenos fossem semelhantes aos da ilha das Caraíbas o saldo não tinha sido ainda mais devastador? E é por causa disto que o desastre da Madeira é revoltante, porque aparentemente alguém assobiou para o lado quando os especialistas avisaram que havia erros de planeamento a corrigir. Mas de repente a malta começou a dizer que o doutor Jardim é um estadista. Mentira! Continua a ser o mesmo déspota populista que, quando confrontado com a realidade dos estudos, não duvidou em responder com insultos sem proferir um argumento válido para refutar as acusações de quem diz que o desastre podia ter sido evitado. Suponho que seja isto um estadista à moda da casa.
Cubanos. Duas semanas antes o doutor Jardim desdenhava dos sicilianos, isto depois de vezes sem conta ter orgulhosamente declarado que podia ser independente do continente onde estão os cubanos, os tiranos, entre outras pérolas. Claro que, quando a desgraça bateu à porta, o doutor Jardim veio pedir ajuda aos cubanos e os cubanos vieram ajoelhar-se aos pés do doutor Jardim a pedir perdão pelos pecados passados. Foi uma triste procissão a das declarações de imprensa de todos os políticos que tiveram direito a um microfone e que, de repente, eram os melhores amigos da Madeira. Deixem falar as vítimas e trabalhar quem as socorre. Tudo o resto está a mais.
A porcaria. Há momentos na nossa vida em que olhamos à nossa volta e só nos apetece desligar o botão e começar de novo. Já não é sequer virar a página, é atirar o caderno ao lixo e começar um novo. Ou, como diria o nosso seleccionador, varrer a porcaria. Eu não gosto muito de varrer porque levanta pó e o varrer só é eficaz se a porcaria for atirada ao lixo – varrer para debaixo do tapete não vale de nada. Quando olho para estas últimas semanas e ouço as histórias que saem nos jornais sobre tudo o que envolve a vida política em Portugal, a única vontade que tenho é essa, varrer a porcaria para bem longe. Tudo cheira a podre, a desonestidade, a esquema, a corrupção. Cada audiência no parlamento é um manual de filhaputice, de manobras de bastidores e, como é óbvio, ninguém hoje sabe quem diz verdade e quem não porque o que todos sabemos é que toda a gente tem algo a ganhar e muito a perder com tudo isto: o PM com o polvo às costas, o PR com as eleições à perna, o PSD com eleições internas, a oposição que quer deitar abaixo o PM, o PGR que quer conservar o posto, os jornalistas que querem passar a imagem dos coitadinhos, os tachistas que querem manter o tacho. Se me conseguirem indicar quem, no meio desta gente toda que tem falado sobre o assunto, diz somente a verdade acima de qualquer suspeita, eu agradecia porque facilitava-me a vida. Acho que isto só vai lá com a mais clássica das soluções informáticas: desliga e volta a ligar. Costuma funcionar com as máquinas.
À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta. Caio Júlio César não foi propriamente um exemplo de virtudes, mas entre um império e algumas lições militares, deixou também algumas lições políticas, a mais famosa das quais a que resultou no divórcio da sua então mulher Pompeia. Pompeia foi considerada responsável por um sacrilégio no qual o próprio César reconheceu que ela pouco poderia ter feito. Mas César contrapôs com a frase que ficou para a história. César, como é fácil de adivinhar, não era estúpido, e aquilo que ele queria evitar era, numa altura em que a política em Roma era tudo menos estável, ter uma distracção com que se preocupar. E este é o problema com que se debate hoje em dia o nosso PR. Está claro que, independentemente desta raça de políticos ser ou não séria, não parece. Duvido que hoje alguém ponha as mãos no fogo pelo PM, PGR, ou mesmo até por uma boa parte da oposição. O problema não é o descrétido dos políticos mas as consequências que isso arrasta para o sistema político em geral. Quem é que hoje acredita que o parlamento é um lugar onde se trabalha para resolver os problemas do país? Quem é que acredita que o governo é um conjunto de funcionários bem qualificados para as funções que ocupam, preocupados unicamente com o desenvolvimento do país? Quem acredita que o PGR é uma garantia de que, em Portugal, ninguém pode cometer um crime e passar incólume sem uma acusação? Se ao leme do país estivesse César, alguém duvida de qual seria a solução?
The economy, stupid. O involuntário slogan do chefe de campanha de Bill Clinton em 1992 soou com estrondo na minha cabeça quando li, há uns dias atrás, as três primeiras notícias da secção de economia do público. Como já aqui disse, eu só leio títulos e aqui está um bom exemplo de como não vale a pena ler o conteúdo. Eis os 3 títulos que foram publicados em questão de horas:
- Retoma está a perder força em Portugal e no resto da Europa
- Salários congelados nas empresas públicas mas TAP e CGD podem ser excepção
- PSI 20 abriu a subir 0,57 por cento
Sobre isto só posso dizer o seguinte:
- Quem negoceia em bolsa deve ter um jornal económico diferente do meu ou ver muito à frente
- O facto da TAP querer ser uma excepção ao corte de salários diz muito da forma como são geridas as empresas públicas, em particular um buraco como a TAP
February 20th, 2010 | Author: hugorila |
Mais uma semana, mais uma revista.
Jardim Siciliano. A rábula da semana veio horas após eu ter publicado o último post. Ainda pensei em escrever um post scriptum mas, porque o conteúdo era demasiado rico, acabei por deixar para a abertura desta semana. Na sexta-feira passada o Alberto João Jardim veio comparar Portugal à Sicília. Cada linha das declarações é melhor do que a outra. Há para todos os gostos. O separatista, “o que se passa na Sicília Hispânica é problema daquela gente”, digo eu desde que esses proscritos continuem a transferir fundos para a república das bananas do Alberto João. O democrata, “Este país precisa de disciplina democrática (…) depois de tudo o que se passou, em Inglaterra o partido do poder continuava no poder mas tinha mudado o primeiro-ministro. E é assim que se faz nos países democráticos”. Obviamente, de cultura democrática sabe o Alberto João que há anos que usa o aparelho do Estado para se eternizar no poder, folhetim de regime incluído já que estamos a falar de liberdade de expressão e ingerência em orgãos de comunicação social. Quero pensar que, para o presidente Jardim, a melhor forma de evitar ser acusado de ingerência é declaradamente assumir propriedade dos orgãos de comunicação social. E continua o Alberto João com “eu gostava é que aparecesse o senhor Jesus Cristo para meter juízo a estes tipos todos”. Quê?!?!?!? O senhor Jesus Cristo, que ao contrário do doutor Jardim, nunca tirou licenciatura, devia era distribuir uns pães daqueles que ele sabe multiplicar porque com a boca cheia esta malta pelo menos estava calada, que eu já não os posso é ouvir. Para resumir, que isto já vai longo, para lições de democracia e liberdade de expressão, falem com o Alberto João. A única coisa que o homem disse acertadamente foi “cada povo tem aquilo que merece”, imagino que o da Madeira também.
Constâncio no BCE. Outra notícia relevante da semana foi a nomeação de Vítor Constâncio para uma das vice-presidências do Banco Central Europeu. Quando algo deste género acontece há sempre uma malta que se põe em bicos de pés, e como o Constâncio não se pôs, o Sócrates não quis deixar passar a oportunidade. Foi uma vitória da democracia Portuguesa, disse ele. Os jornais nacionais, aliás tal como os internacionais, dizem que foi a pressão da Alemanha porque, com um PIGS* no BCE, é quase garantido que o próximo governador do BCE será o alemão Weber e não o italiano Draghi. Humm, deixa-me pensar em quem devo acreditar. No Sócrates e no extraordinário mérito da diplomacia portuguesa, ou nos jornais e no poder específico da Alemanha na UE? Diga-se de passagem que, para todos os efeitos, e apesar do Weber ser um mau governador obcecado com o combate à inflação, é melhor que ter lá o Draghi que tem as mãos sujas em toda a tramóia da Grécia enquanto vice-chairman da Goldman Sachs. Pelo menos o Constâncio manteve a decência ao afirmar que para estes lugares as pessoas não são nomeadas tanto pelo mérito individual como pelas implicações políticas.
Directas no PSD. O PSD vai eleger um novo líder, para aí o vigésimo dos últimos 10 anos. O PSD é o Benfica do nosso futebol. Dinheiro a rodos, queimam treinadores como quem come tremoços e no final ganha o Porto (ou talvez o Braga, vamos ver). E isto tem ainda mais piada quando olhamos para os candidatos, pelo menos no PSD parece que são sempre tirados das anedotas da minha infância. Está um inglês, um francês e um português… No PSD temos sempre o gajo do aparelho e da continuidade (Aguiar Branco), o rebelde (Passos Coelho) e o apolítico (Rangel), que só pelo facto de ter apenas um apelido já se pode afirmar como um gajo que nem sabe bem o que é a política e se candidata a um cargo político contra os políticos. É assim como dizer que eu quero ser jogador de futebol porque só quero jogar ténis. Prevejo que antes do fim da época haja nova chicotada e mais umas directas. Quem esfrega as mãos é, naturalmente, o Portas. O Sócrates não esfrega as mãos porque, como todos sabemos, um polvo tem tentáculos e não mãos.
Quatro vezes dez por cento. Termino com dois números, porque foi assim que me ensinaram nos cursos de comunicação. Na semana em que Portugal atingiu os 10% de desemprego, soubemos que os nacionalizados portugueses quadruplicaram nos últimos anos. Eu, se fosse ao Sócrates, saía de cena, metia um desses nacionalizados como relações públicas e deixava-o falar livremente. Esses gajos só podem estar a ver um jardim luxuriante onde todos os outros vêem um monte de merda. Pelo menos podia ser que o país ganhasse em auto-estima, ou então que ficássemos como a Madeira, que diz o Alberto João que é um paraíso na terra.
February 12th, 2010 | Author: hugorila |
Segunda revista da semana, e que semana! O prato do dia é, como não podia deixar de ser, polvo. Fresquíssimo, cozinhado à moda da casa como só nós sabemos. Mas temos mais pratos disponíveis no menu.
Polvo à Portuguesa. Como eu estou a ficar velho, já posso usar a expressão “os mais jovens provavelmente não se lembram disto” mas o Polvo original que o Sol plagiou é a máfia italiana. A alcunha foi tornada famosa pela óptima série italiana La Piovra dos anos 80 em que um comissário tentava sem sucesso destruir a máfia siciliana. O polvo à portuguesa não mata ninguém e vendo aquilo de que é capaz eu diria mesmo que ou é um polvinho pequeno, daqueles que não dá para filetes, ou então já alguém lhe arrancou tentáculos. Porque vamos pôr os factos na mesa. A imprensa está a acusar o governo de ser um polvo do jornalismo. Espera aí, deixa-me ler de novo a última frase. O governo está a ser denunciado pela imprensa que o próprio governo domina com os seus poderosos tentáculos. Humm… que polvo este! Mas o plano era genial. O governo ia comprar a TVI, Público e a Cofina mas esta só porque tinha que ser. Espera aí, só porque tinha que ser? É que senão a malta desconfiava. Tipo, humm… o governo comprou a TVI e o Público e deixou a Cofina de fora? Isto cheira a esturro…
Justiça à lagareiro. O meu saco de boxe preferido volta à ribalta pelas razões e argumentos de sempre. O circo a que se tem assistido tem uma génese – um sistema de justiça falhado. Num Estado de direito, um juiz não pode emitir opiniões baseadas em escutas legais ou não, um político acusado de censura tem que ser acusado e considerado culpado ou inocente, os jornais não podem sistematicamente publicar factos em segredo de justiça, os jornalistas não podem andar por aí a acusar malta sem sofrerem consequências. Isto são só uns poucos aspectos que me vêm à cabeça sem pensar muito. Num Estado de direito o circo desta semana era um caso de justiça já resolvido há muito tempo. Como a justiça não funciona para ninguém, toda a gente se julga no direito de a fazer por suas próprias mãos. O resultado é um ambiente podre. Eu nunca tive que viver com alguém que me enganou e eu perdoei mas imagino que seria algo como o ambiente que se vive hoje no nosso jardim.
Espuma de demissão de sócrates em redução de cavaco. É óbvio que o primeiro ministro não tem condições para se manter no cargo. PM para a rua por incompetência. Quis comprar a TVI e não conseguiu, quer controlar o DN mas os gajos continuam a publicar factos inconvenientes, o Sol e o Público é que se vê, controla o Oliveirinha a ver se o Benfica ganha alguma coisa e vem o Braga e põe-se primeiro. Senhor primeiro ministro, o seu polvo só em bom para tapas, frito e comido de uma dentada. Tenho uma coisa clara. O PM devia propor-se aumentar a despesa e o défice amanhã e levar este país para o buraco. Com a competência com que ele trata estes dossiers, era da forma que Portugal resolvia os problemas com que se debate há anos. Já agora uma pequena nota. Aqui há uns anos o PR demitiu o PM por incompetência e largamente apoiado pela imprensa, agora ninguém diz que o PR tem que demitir este PM por razões muito mais graves. Adoro a coerência da nossa imprensa. E entretanto o PR está caladinho a ver se ninguém se dá conta dele antes das eleições. Para ter um fantoche podíamos lá pôr alguém que pelo menos dissesse umas piadas ou então uma gaja boa.
Filetes de imprensa com arroz do mesmo. Vamos aos factos. Os factos dizem que o governo controla a PT e indirectamente dois canais de TV minoritários (já lá vai o tempo), dois jornais de grande tiragem, uns canais da bola e uns canais de rádio. Os factos também dizem que um canal de TV é controlado por um tipo do PSD, um dos diários mais relevantes (Público) é controlado por alguém que não vai à bola com este PM nem que ele leve as jolas e os amendoins, e um dos semanários de altos decibéis acaba de expor a grande trama. Outro facto diz que o Crespo acusa este governo de censura porque alguém, que não sabemos quem, ouviu uma conversa num restaurante. Claramente estes senhores têm que deixar de fazer negócios em locais públicos, eis um bom argumento para aprender a cozinhar. Se o PM tivesse convidado o Nuno Santos para um jantar lá em casa o Crespo não tinha sabido de nada. Por certo, é preciso esclarecer que o polvo pode ter poucos tentáculos mas um deles é longo e já vai em Espanha porque, se bem se lembram, o principal accionista da TVI era a Prisa. Este PM é manhoso. Os factos também dizem que tudo isto se desenrolou em Agosto, antes das eleições, e só meio ano depois é que rebentou. Tudo por causa de uma conversa de restaurante que os amigos do Crespo ouviram. E os factos dizem ainda que o masterplan do governo incluía ver-se livre do Moniz para… ele depois regressar num cargo de maior responsabilidade. Se o nosso polvo fosse só cozido com batatas não tinha metade da piada.
Vasconcelos raspado com muito molho. Este é o nosso prato para clientes que procuram máximo valor. Usamos partes menos nobres do polvo mas que picadinhas e com muito molho até parece filetes. Já passaram uns anos mas aquando da OPA da Sonae à PT eu escrevi noutro fórum sobre este desconhecido que de repente assumiu uma posição de enorme reklevância ness processo. Alguém que ninguém conhecia, vestia bem e usava generosas camadas de gel no cabelo de repente vinha para as luzes da ribalta. Na altura eu questionei-me sobre quem era este personagem, de onde tinha saído e quais eram os seus interesses. Continuo sem resposta cabal para a última questão mas é curioso que este senhor desde então tem vindo a assumir uma posição relevante em várias empresas de grande dimensão e, como toda a gente sabe, o dinheiro não cai do céu e este padrão de comportamento já se viu noutros lados com consequências não muito tranquilizadoras. Por certo, na ficha biográfica que a PT publica pode-se ler que o Vasconcelos se licenciou no Curry College em Boston. Eu, que vivi uns anos em Boston e tive contacto com muitíssimas universidades mais e menos conhecidas, nunca ouvi falar da Universidade do Caril.
É este o menu da semana. Eu não vou tomar posição nesta trama porque os factos são manhosos e as fontes duvidosas. Fico-me pela segunda opção do menu porque tenho especial apreço pelo lagareiro e porque, se a nossa justiça funcionasse, este menu não existia.
February 6th, 2010 | Author: hugorila |
Tomei uma resolução antes de escrever este post com o objectivo de me obrigar a ser um pouco mais regular na minha escrita. A partir desta semana, e aproveitando os tempos mortos no aeroporto às sextas-feiras, vou tentar escrever um post de reflexão semanal baseado nos factos da semana.
A presa do mercado. Como não podia deixar de ser, esta primeira reflexão não pode ignorar a grande notícia da semana. Quem nos deu a notícia foi o ministro das finanças, uma pessoa que eu respeito desde os tempos em que foi meu professor de macro-economia, mas que tem mostrado que, ou está demasiado embrenhado no trabalho ou perdeu o senso comum. Portugal é a nova presa do mercado. Já quisera Portugal que os investidores internacionais olhassem para o país, como presa que fosse. A resposta foi dada pela bolsa lusa no dia seguinte e tudo não passou de um susto. Os compadres de sempre não perceberam bem o que o Almunia disse mas veio o ministro e tranquilizou as tropas. A bolsa voltou ao normal e estamos todos felizes. E os investidores internacionais? De certeza que estavam à frente da TV a ouvir o ministro e ficaram também muito mais tranquilos. Daí a resposta do mercado. Só pode ser.
O investidor internacional. Hoje em dia eu sou, em Portugal, um investidor internacional para todos os efeitos. Como investidor internacional que lê o jornal, este foi o paraíso que eu pude ler durante a semana. Na segunda o governo anda preocupado com limpar um jornalista da cena mediática. Na terça o mesmo governo quer combater a corrupção tornando públicas as declarações fiscais dos contribuintes. Eu não costumo concordar muito com o Louçã mas desta vez o homem acertou quando disse que a medida era pura coscuvilhice fiscal. Na quarta sabemos que o ministro das finanças se quer demitir por causa de uma lei que vai aumentar o endividamento externo em 50 milhões de euros. E na quinta o mesmo ministro mostra surpresa e repúdio por os mercados internacionais compararem Portugal com a Grécia. O ministro não deve ler jornais ou até os próprios emails, só assim se pode justificar a surpresa.
Quanto vale 1 milhão? Na quinta soubemos também que o valor de 1 milhão depende de como se olha para ele. O ministro devia ter-se demitido no momento em que o considerou uma opção porque se acha que 50 milhões de euros são motivo para isso, e eu não questiono que a nova lei das finanças regionais seja péssima, 250 milhões de euros são cinco vezes mais motivo para uma demissão. E 250 milhões de euros foi o erro de cálculo que o ministério das finanças cometeu quando calculou o défice na rectificação do orçamento. Mas agora sabemos que 250 milhões não são importantes mas 50 podem ser cruciais. Tudo depende de quem olha para eles. Isto, obviamente, inclui a oposição que acha que 50 milhões de dívida e 40 de transferências são negligenciáveis. Provavelmente acha um escândalo se o ministro se enganar em 50 milhões.
Portugal e a Grécia. Em casa onde não há pão, toda a gente ralha e ninguém tem razão. Este ditado cai quem nem uma luva na questão da comparação de Portugal, Grécia e Espanha. Aqui o problema já não é que não há pão, é que andamos a comer o pão do vizinho. O ministro diz que não somos comparáveis e tem razão. A Grécia tem 12% de défice, mais de 100% de dívida e andou a esconder números negativos. E Portugal? Muito melhor. 10% de défice, 76% de dívida mas não andamos a esconder números, só nos enganamos de vez em quando, assim em 1% e tal. Mas ninguém se demite porque somos todos de bons costumes.
O desporto. Termino com uma pincelada de desporto porque achei que a semana desportiva era a cereja em cima do bolo na república das bananas. Segundo percebi, o túnel do estádio do Benfica é pródigo em acontecimentos estranhos. Há uns seguranças que provocam jogadores, dirigentes à bofetada, jogadores ao pontapé e uns quantos ficam suspensos preventivamente. A malta da disciplina actua diligentemente e diz que quer tomar uma decisão rápida, tipo 3 meses. É a celeridade da justiça portuguesa que já foi comentada neste blog. Depois há mais uns incidentes com uns jogadores do Braga, mais suspensões. E finalmente agora o Benfica diz que o Sporting lhe deve qualquer coisa, o outro diz que é mentira. E vamos nisto até ao Mundial que, obviamente, é para ganhar.
Como diria um investidor internacional, “it’s a Banana Republic”. E depois o ministro acha estranho.
Acho que para primeira revista da semana, não está nada mal. Temo que as próximas semanas não sejam tão animadas, o que é pena.
December 25th, 2009 | Author: hugorila |
Quem anda com o nariz enfiado na relva, mais cedo ou mais tarde bate com a cabeça na árvore. Não sei bem quem é o autor desta frase mas vem mesmo a calhar a propósito da recente polémica sobre a Red Bull Air Race e as reacções acesas de vários portuenses, amigos e não amigos.
Há vários anos que aqueles com responsabilidade política no Porto se têm entretido com guerrinhas e pequenas vitórias que reflectem a falta, não só de uma perspectiva de longo prazo para a cidade, como também de uma visão do todo, ou seja, da árvore e não apenas da relva.
O problema da excessiva centralização de poder em Lisboa é real e, como já aqui disse em Setembro quando apresentei o meu “programa de governo”, preocupa-me muito mais pelo que representa para o desenvolvimento do país do que pela sorte de uma região ou cidade. Mas a descentralização tem que ser defendida com cabeça e com uma estratégia, e isso tem faltado ao país e ao Porto em particular.
Eu dou um exemplo bem claro daquilo que estou a falar. Há uns anos atrás a Ryanair inaugurou uma rota para o Porto e foi ouvir-se um coro de elogios às vantagens que isso traria para a cidade. Mais recentemente a Ryanair foi mais longe e fez do Porto um dos seus hubs, o que basicamente permite que o Porto seja ponto de partida de rotas dado que os aviões podem estacionar aí, abrindo entre outras alternativas, a possibilidade de começar a realizar voos domésticos (diz-se). Esta decisão foi aplaudida por toda a gente que eu ouvi e foi até precedida de abaixo-assinados (que, como toda a gente sabe, são sempre úteis e ouvidos pelo decisores).
As consequências desta estratégia genial são já visíveis. Agora o Porto tem ligações a Stansted, Girona, Beauvais, Bergamo ou Frankfurt Hahn, mas perdeu todos voos da Air France, KLM e British Airways. Dos 5 voos diários que eu me lembro existirem da Lufthansa para Frankfurt restam três e o resto das ligações a hubs internacionais são monopólio da TAP, que está longe de ser uma companhia global como deve ser. Imagino que a Iberia se seguirá a menos que haja algum tipo de obrigação contratual. O resultado prático é simples, quem quer voar para o Porto em negócios ou voa em horários e para aeroportos inconvenientes com a Ryanair que normalmente obrigam a passar uma noite na cidade, ou voa com a TAP… ou voa para Lisboa. Eu sinto-o na pele porque desde que vivo nos Estados Unidos só por uma vez consegui viajar directamente para o Porto, não importa qual seja a minha cidade de origem: Nova York, Boston, San Francisco. Na verdade duas vezes contando com esta precisa viagem durante a qual escrevo este post, mas para isso foi preciso perder dois voos para Lisboa e atravessar Paris de Norte a Sul (CDG para Orly) para apanhar o voo da TAP. Convido-o para um “faça você mesmo”, tente reservar um voo de qualquer cidade do mundo para o Porto e verá os resultados.
É a isto que se chama “enfiar o nariz na relva”. Não sei quem são os responsáveis por estas decisões mas sei que a ANA ainda é uma empresa pública e também sei que quando se decidiu escancarar as portas do aeroporto do Porto à Ryanair ninguém se queixou como agora se queixaram porque perderam uma corrida para Lisboa. Ter um aeroporto internacional (quando eu digo internacional é com ligações a aeroportos de primeira linha) é apenas um exemplo de um aspecto de uma possível estratégia para o Porto. Mas que estratégia existe actualmente? Realmente alguém pensa que o Porto pode ser um centro turístico? Porque é disso que falamos quando trazemos low cost e corridas da Red Bull, falamos de turismo.
Portanto, antes de entrar em guerrinhas sobre corridas de aviões, alguém devia pensar que estratégia querem para desenvolver o Porto. Até porque com uma estratégia na mão é melhor argumentar com o governo central.
December 2nd, 2009 | Author: hugorila |
Cada dia que passa mais me convenço da bondade da minha decisão tomada há algum tempo de deixar de ler notícias. A leitura dos cabeçalhos é suficiente para satisfazer a minha curiosidade intelectual e ler muito mais cabeçalhos em mais jornais das mais diversas fontes. Ainda vou lendo alguma opinião e basta. E se algo me ensinaram estes largos meses deste a minha tomada de decisão é que confiar num jornal para me informar sobre o que se passa no mundo é vastamente insuficiente.
Há cerca de 1 semana li um cabeçalho no New York Times sobre uns emails que andavam a correr sobre um possível engodo à volta da investigação sobre o aquecimento global. A notícia recebeu muito pouco destaque deste jornal e nenhuma atenção de qualquer dos principais jornais portugueses. Os cabeçalhos dos jornais americanos trataram deste tema como se de um problema informático se tratara, tipo ‘alguém atacou o servidor de email da universidade’.
O problema revelou-se mais sério que um simples ataque informático. Estamos a falar de fraude. A universidade vítima deste ataque recebeu 19 milhões de dólares entre 2000 e 2006 para investigar as alterações climáticas. Eles investigaram e parece agora que a investigação tem sido inconclusiva, ou seja, que os dados disponíveis não permitem concluir que a acção humana e as alterações climáticas têm uma relação de causa-efeito. Pior ainda, a investigação não permite concluir sequer que existe qualquer alteração climática. Para os que acham que eu estou a delirar, eis um especialista a falar. Mas como é evidente, esta universidade sabe que o dinheiro para a investigação só continua a entrar se a paranóia do aquecimento global se mantiver. Como tal, o que estes senhores fizeram e que ficou registado nos emails agora pirateados foi manipular modelos climáticos e esconder resultados da investigação tanto quanto possível.
Perante estas notícias se calhar alguém dirá que eu estou a levantar demasiadas ondas e que talvez os jornais portugueses estejam a actuar correctamente ao ignorar a notícia. Afinal é um facto isolado numa universidade britânica. Só que o problema é mais sério que esta fraude de 19 milhões de dólares. Para os que gostam de números eu deixo aqui alguns. Nos próximos anos a União Europeia vai gastar 3 mil milhões de euros a investigar o aquecimento global, a NASA vai ter 1.3 mil milhões de dólares para a mesma causa e o banco HSBC estimou que só este ano foram gastos 94 mil milhões de dólares em investigação sobre este tema. Para os que não gostam de números eu lembro que há dois anos foi atribuído um prémio Nobel da paz ao Al Gore com a sua verdade inconveniente. Já na altura eu critiquei o facto deste senhor falar constantemente de ‘os cientistas dizem’ e ‘a ciência tem provado’ sem nunca mencionar que cientistas e que tipo de ciência prova o que ele tem vindo a publicar em vários livros que lhe têm valido muitos milhões de dólares. Não surpreende que o prémio Nobel da paz se desvalorize a cada ano que passa.
Isto tudo parece quase surreal. É como se de repente todos os governos do mundo começassem a dedicar recursos, tempo e milhares de milhões a investigar a vida extra-terrestre porque o meu vizinho jura a pés juntos que recebeu uma mensagem inter-galáctica. Substituam ‘vida extra-terrestre’ por ‘aquecimento global’ e ‘meu vizinho’ por ‘Al Gore’ e têm aqui possivelmente o maior barrete do século. A mensagem inter-galáctica pode ficar.
November 20th, 2009 | Author: hugorila |
Portugal caminha para o duplo 10, 10% de défice e 10% de desempregados. De momento temos apenas uma autorização do parlamento para se chegar aos 9% de défice, mas se a oposição está contente com 8% e o governo com 9%, quando as contas forem realmente feitas devemos estar nos 10%. Pelo menos esta tem sido a norma do planeamento público. E o desemprego já não deve parar antes dos 10%, porque o mercado de emprego reacciona com uns meses de atraso em relação à economia e a economia não se prevê que cresça nos próximos tempos. De crescimento real estou a falar, aquele que permite às pessoas comprar pelo menos um rebuçado mais este ano do que no ano anterior.
O crescimento do défice e do emprego não seriam tão graves se não se conhecessem a incapacidade de todos os governos portugueses (desde Salazar talvez?) em reduzir a despesa pública e a rigidez do nosso mercado laboral.
Por partes. Sem reduzir despesa não vamos conseguir endereçar a economia. Por pôr um exemplo simples, se eu este mês gastar mais do que ganho e puser no cartão de crédito, no próximo mês vou ter que gastar menos do que o que ganho para poder pagar o cartão de crédito. Se não conseguir, no próximo mês vou começar a pagar juros no cartão. E ainda pior, se continuar a gastar mais, a minha conta do cartão de crédito só vai piorar. Ou seja, para eu resolver realmente o meu problema e poder reduzir a minha conta de cartão tenho que gastar menos do que ganho. É isto que os governos têm sido incapazes de fazer. Reduzir o défice significa apenas que cada ano eu acrescento um pouco menos à minha conta a crédito mas ela continua a aumentar. E como pago juros sobre isso, quanto mais aumenta mais apertado eu fico. A única maneira de resolver o problema é eu gastar menos do que ganho e isso, um superávit orçamental, que é algo que ninguém se lembra de acontecer. E só há duas maneiras de conseguir ter um superávit. Ou eu ganho mais dinheiro, ou seja subo impostos ou a economia cresce com pujança, ou eu gasto menos, e é aqui que os governos têm claudicado. E portanto continuamos a acumular défices e a ver a nossa dívida aumentar. 10% não é mau no contexto global mas é-o no contexto específico do país.
Os 10% de desemprego são outro tipo de problema. Como é normal, em tempo de crise o desemprego sobe. O problema em Portugal, que é comum à maioria dos países europeus, é que o mercado de emprego é extremamente rígido. Ou seja, é difícil despedir e como tal quando chega a crise o despedimento, que deveria ser uma válvula de escape, é uma válvula entupida. As empresas só despedem em desespero de causa ou despedem gente válida com contratos precários, muitas vezes jovens que estão mais sujeitos a contratos a prazo mas que provavelmente são de enorme valia. O resultado é um lastre de custos acumulado em tempo de crise e uma redução do talento que as impede as empresas de se reestruturar quando a economia começa a crescer. E por isso demora muito mais tempo até que estas empresas voltem a ter a saúde suficiente para voltar a contratar. E como tal o desemprego não diminua até vários meses após o início da recuperação económica.
No meio desta conversa técnica porém pode passar despercebido o verdadeiro drama deste duplo 10. O duplo 10 significa mais gente no desemprego, mais gente em situação desesperada, provavelmente com dívidas por pagar e famílias para alimentar. Significa fome, pobreza e mais atraso. Um atraso que já levou Portugal do topo da cauda ao rabo da cauda da Europa dos 15 e que, se nada mudar, nos vai levar do topo da cauda ao rabo da cauda da Europa dos 27.
P.S. Há tempos li um artigo, e tenho pena de não ter guardado o link, a congratular-se pelo facto da Irlanda e da Espanha, vistos durante muito tempo como exemplos a seguir, estarem agora a passar um mau bocado, concluindo que afinal o nosso atraso na última década não era tão criticável. O artigo recebeu inúmeros comentários positivos. É pena porque é mesquinho e ignora um pormenor importante. É que, mesmo tendo caído, qualquer dos dois países continua à frente de Portugal em todos os índices de qualidade de vida. E convém lembrar também que no início dos anos 80 partiram todos basicamente do mesmo ponto. E que, ao contrário do que diz o ditado e a física, em economia é preferível cair do ramo mais alto porque normalmente tenho mais ramos a amparar a minha queda e eventualmente vou parar num desses. Se eu cair do primeiro ramo vou parar ao chão.
November 20th, 2009 | Author: hugorila |
Ultimamente tenho sido confrontado por diversas vezes com a questão de voltar ou não a trabalhar em Portugal. A minha resposta tem sido invariavelmente um rotundo não, nem agora nem num futuro próximo. Há quem o interprete como um estado de amargura permanente, outros acham arrogante, eu penso simplesmente que se vivemos na era da globalização devo procurar as condições ideias para desenvolver o meu trabalho onde quer que elas existam. E esse lugar não é neste momento Portugal.
A face oculta que tem enchido os jornais nos últimos tempos tem o condão me atirar à cara duas das três principais razões que me levam a não querer trabalhar em Portugal. Explico-me.
Corrupção. O problema da corrupção não é tanto ela existir mas o que nós fazemos com ela. A existência de gente corrupta não se pode atribuir a um governo, mas aquilo que se faz com os corruptos é da total responsabilidade deste governo e dos que passaram pelo poder, que se têm mostrado incapazes de criar uma justiça funcional. Já aqui disse e repito que o mais grave problema com que Portugal se debate é a justiça. O sentimento que impera, em nacionais e estrangeiros, é que em Portugal quem tem dinheiro é impune e isso afasta investimento porque ninguém está para se chatear a investir num país que tem uma justiça terceiro-mundista e salários de primeiro mundo (ou lá perto).
Clientelismo. A face oculta lançou de novo para as primeiras páginas do jornal um indivíduo que eu repugno pelo que representa. O doutor Vara, doutor porque se licenciou numa universidade entretanto encerrada no polivalente curso de relações internacionais, personaliza o que eu chamo factor de implosão da relação universidade – mercado de emprego. O doutor Vara chegou a director da CGD sem nunca pisar uma universidade, ou pisando fê-lo sem aproveitamento. E não pretendo com isto diminuir aqueles que não têm um curso superior. Não é um certificado de inteligência nem nada parecido mas um banco não é uma mercearia, nem sequer uma empresa de software. Aí está a recessão a provar que gente extremamente inteligente é facilmente enganada por quem de facto sabe do assunto. Eu nunca ouvi o doutor Vara emitir uma opinião sobre finanças e no entanto ele tem (tinha) responsabilidades sobre áreas da maior complexidade no maior banco português – banca de investimento, clientes corporate, crédito especializado. Podemos encontrar mais doutores Varas espalhados pelas maiores empresas portuguesas, estatais ou não, e isto é o tal factor de implosão da relação universidade – mercado de emprego. Quando as perspectivas profissionais não têm correspondência com a competência de um indivíduo para executar uma determinada função, a lógica do sistema de ensino e do mercado de trabalho rui pela base. Porque razão vou eu tirar uma licenciatura se sei que a melhor forma de promoção é ser amigo do chefe? Porque razão quero um mestrado se sei que a minha carreira não depende da minha formação? O clientelismo tem uma consequência dupla: por um lado destrói o sistema de educação porque desincentiva a excelência do ensino como passo lógico para uma carreira profissional de sucesso, e por outro lado destrói o mercado de trabalho porque arruína a motivação daqueles que sabem que a carreira não depende da sua qualidade mas antes de jogos políticos.
Se juntarmos a estes dois factores a falta de qualidade da gestão em Portugal temos um cocktail que é demasiado amargo para o meu paladar. Em vez de lidar com doutores Varas prefiro procurar oportunidades onde sei que a minha evolução profissional depende em maior parte de factores que eu controlo. E este problema, que eventualmente é mais visível para mim porque tenho contacto diário com gente nas mesmas condições, vai drenando pouco a pouco a capacidade do país reverter a situação complicada em que se encontra. A questão não tem apenas a ver com aqueles que procuram o estrangeiro como escape, tem sobretudo a ver com aqueles que, ficando em Portugal, podiam ter um papel relevante no desenvolvimento do pais mas não estão para se chatear porque não têm alma de Dom Quixote.
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