August 13th, 2010 | Author: hugorila |
Ontem ficámos a saber que o excesso de sal no pão passa a dar multa. 14 gramas por quilo é o limite. Conhecendo o zelo da ASAE quando se trata de fazer cumprir a lei, é bom que os padeiros do nosso país calibrem bem a balança ou da próxima vez que a ASAE encontrar uma amostra com 15 graminhas por quilo de sêmea vão ser prontamente notificados para o pagamento dos 5,000 euros de multa. Convenhamos que 5 mil euros por grama de sal, mil contos dos antigos, é muito dinheiro.
Pergunto-me se não poderíamos criar uma lei que regulasse os atrasos na justiça da mesma forma. Definem-se prazos e por cada diz de atraso, cá vai uma notinha de 5,000 euros. E já agora ponha-se a ASAE a fiscalizar os atrasos, que eles são bons nisso e rápidos a sacar o bloco de multas.
Quando estava no Brasil as pessoas riam-se de cada vez que saía uma lei de grande impacto. Gerava um grande ruído mediático nas primeiras semanas e depois lentamente morria no esquecimento e tudo voltava ao normal. Toda a gente sabia disso e ninguém se incomodava. No reverso da medalha, todos sabiam que uma nova lei era mais uma desculpa para a polícia passar uma multa, aumentando assim a arbitrariedade das forças da lei. Como me dizia um amigo, “quando a polícia me pára eu sei que vou levar uma multa porque há sempre alguma lei que eu estou a violar e que só ele conhece”.
Entretanto em Nova York foi lançada uma nova campanha de higiene em restaurantes e cafés da cidade. Soa familiar? Não foi criada nenhuma ASAE e o processo arrancou com inúmeras sessões de sensibilização (educação) e esclarecimento sobre os objectivos da iniciativa. Em vez de multas foram criadas classificações que os estabelecimentos terão que afixar de forma visível. Temos assim os limpos, os menos limpos e os fujam daí, que desde que garantam mínimos de higiene podem manter-se abertos. E mais, quando alguém receber uma letra B ou C (A é o máximo) podem recorrer e recebem uma nova inspecção antes de serem obrigados a afixar a nota. Ou seja, o objectivo é que todos possam ter um A. Mas sem fechar portas a estabelecimentos que, por razões de custos ou clientela, preferem manter mínimos de higiene, incluindo por exemplo não ter uma casa de banho.
Num país que tem tantas dificuldades em fazer cumprir a lei, continua a espantar-me este frenesim legislativo que cria um excesso de leis que ninguém cumpre. Não seria melhor primeiro fazer cumprir as leis que já temos antes de legislar sobre assuntos banais que podiam ser resolvidos com acções educativas?
August 4th, 2010 | Author: hugorila |
Portugal é o terceiro país da Europa com mais contratos a termo depois da Polónia e Espanha. Não conheço as leis laborais na Polónia mas em Espanha são semelhantes às nossas e, curiosamente, penso que não está aí o problema.
Em Portugal, como em Espanha, o crescimento dos contratos a termo é uma artimanha para fugir à lei que obriga as empresas a oferecer contratos vitalícios a todos os trabalhadores permanentes. Como artimanha que é, esta conduta é condenável, mas vale a pena olhar para o problema com mais cuidado.
Num mundo ideal um contrato seria dispensável. Num mundo ideal, ou seja, honesto e franco, as empresas ofereceriam emprego aos mais competentes para o posto e estes aí se manteriam enquanto as suas competências o justificassem ou tal fizesse sentido para empresa e empregado. Se fosse despedido, o empregado procuraria trabalho noutra empresa que estivesse em busca das suas competências e, em caso extremo, o Estado auxiliaria com um subsídio de desemprego enquanto o trabalhador estivesse à procura de um empregador. Este mundo ideal não é algo tão utópico pois foi quase sempre nestes termos que o trabalho na lavoura funcionou no nosso país. Os melhores têm mais trabalho e os menos bons um pouco menos. Quando há crise há menos trabalho e todos têm menos trabalho, alguns nenhum trabalho, mas quando a economia cresce o que não falta é trabalho.
Não sou ingénuo a ponto de pensar que este mundo à base da honra e honestidade se pode estender a todo um país, mas não seria aconselhável que as leis aproximassem a realidade deste ideal? Quando dou voltas a este problema chego sempre ao mesmo ponto de chegada, que é o de que as empresas deveriam ter mais flexibilidade para ajustar o seu pessoal e dessa forma estarem melhor preparadas para fazer frente a dificuldades, sejam estas crises, novos concorrentes, novos produtos, etc. O problema desta solução tem um nome – chama-se mentalidade do empresário português e segue alguns princípios fundamentais: quanto mais dinheiro para mim (empresário) melhor, quanto mais explorado o trabalhdor melhor, quando menos benefícios para o trabalhador melhor, promoções zero ou muito controladas, entre outros do género. Claro que neste quadro é difícil pensar numa lei que permita aos empresários mais discricionariedade.
Porém, não tenho dúvidas que a lei actual não serve a ninguém. Em primeiro lugar porque a segurança de um contrato vitalício é ilusória e perniciosa, na medida em que uma empresa em declínio não oferece segurança a ninguém e a segurança incentiva os menos dedicados a abandonarem-se a uma rotina que os leva a ficarem desactualizados. Em segundo lugar porque incentiva as empresas a contratarem trabalhadores a prazo ou a serem conservadoras na hora de empregar gente nova para não ficarem atadas a um fardo demasiado pesado, aumentando em última análise o nível de desemprego do país. Em terceiro lugar porque aqueles que procuram segurança são, por princípio, os piores trabalhadores, já que os melhores sabem que têm mercado.
Seriam por isso bom que, em vez de falar de flexibilidade, segurança, flexisegurança (e, porque não, segurixibilidade?), se falasse em educação e em ensinar, desde os bancos da escola, ética no trabalho e empreendedorismo. Melhores empresários e melhores trabalhadores fariam as nossas leis melhores. O problema desta lei é que está feita por trabalhadores que desconfiam dos empregadores e empregadores que desconfiam dos empregados, e quando meio mundo desconfia do outro meio não há lei que resista.
PS. O meu contrato actual é um contrato não seguro, ou seja, como todos os contratos de trabalho nos EUA a empresa pode despedir sem justa causa com uma semana de aviso prévio. Curiosamente, em nenhum momento senti que o meu posto fosse menos seguro aqui do que em Portugal quando tinha um contrato vitalício. Por outro lado, se uma empresa despedir um trabalhador por razões de discriminação (raça, sexo, etc) sujeita-se a uma multa significativa. Claro que para tudo isto funcionar é preciso que as empresas actuem com base em critérios racionais e, por outro lado, é fundamental que a justiça funcione – dois princípios que em Portugal estão longe de acontecer.
August 4th, 2010 | Author: hugorila |
Volto ao meu saco de pancada favorito – a justiça. Eu não sou um entendido em matérias de justiça. Aliás, durante o meu percurso universitário, as cadeiras de direito foram invariavelmente a nódoa no meu currículo, tendo obtido consecutivas classificações medíocres e as minhas únicas orais. O problema, disse-me uma vez um dos meus professores, é que eu não procuro alternativas ao sentido comum da lei. Ou seja, eu não tentava ir buscar os podres da lei. Para mim, justiça significa que se fulano A mata B vai preso, se fulano B rouba C é punido e por aí em diante. E, segundo aprendi, isto não é justiça porque há cambiantes nas palavras matar e roubar que tornam as decisões infinitamente mais complexas. Tão complexas que, a determinada altura, deixam de fazer sentido para o cidadão comum. Como eu.
O problema da justiça se afastar do senso comum é a perda de credibilidade, como acontece nos dois casos mais recentes que têm vindo nos jornais. Mais grave que o caso do Freeport que, se não fosse recorrente e sério, seria cómico, foi a decisão do Supremo Tribunal Administrativo (STA) de anular a sentença que condenou a Estradas de Portugal (EP) a pagar uma indemnização a uma pessoa que ficou tetraplégica. A vítima, que circulava numa estrada da EP, foi atingida por uma árvore de 18 metros plantada a poucos metros da berma. A EP foi inicialmente condenada a pagar uma indeminização por se entender que é sua responsabilidade garantir que se pode circular em segurança nas suas estradas mas recorreu alegando que a árvore não era dela e chutando a responsabilidade para o dono do terreno. Sendo típico, curiosamente não foi isso que levou o STA a absolver a EP, e é aqui que a justiça portuguesa revolta. O STA, apesar de reconhecer que compete à EP “vigiar a perigosidade para a circulação rodoviária das árvores próximas das vias públicas”, absolve a EP porque “seria leviano pensar que a EP tem obrigação de vigiar todas as árvores”. Se esta decisão só a mim me parece chocante agradeço que mo digam (a sério!). A mim isto parece-me obsceno. Ou seja, a EP não é culpada porque assumiu responsabilidades que não pode cumprir. Porque as árvores são manhosas e fazem coisas impensáveis, como cair.
Não admira que eu nunca tenha sido bom a direito. Esta decisão do STA ou o caso Freeport são provas adicionais de que o grande ganha sempre ao pequeno, o poderoso ao fraco, o Estado ao cidadão e a culpa morre sempre solteira nos nossos tribunais. Excepto, claro, quando o culpado é o mexilhão. No entanto, o nosso direito aparentemente sanciona estas decisões.
Já aqui disse que quando a jutiça se afasta do senso comum encoraja os cidadãos a fazer justiça pelas próprias mãos, seja isso roubar, fugir aos impostos ou matar. Quando o cidadão não percebe as decisões dos tribunais a justiça perde credibilidade e passamos a ter dois mundos distintos. O primeiro mundo onde vivem os iluminados que acham estas decisões tecnicamente correctas e o segundo mundo onde estão todos os outros que deixaram de confiar nessas decisões e nesses decisores. Quanto mais desfechos tivermos como estes, mais alimentamos o segundo mundo.
August 3rd, 2010 | Author: hugorila |
No dia a seguir ao anúncio da venda da quota da PT na Vivo à Telefónica, o primeiro ministro veio dizer que “a defesa intransigente do interesse estratégico [ou seja, o uso da golden share] foi absolutamente essencial para que a PT pudesse fazer um excelente negócio”.
Como vem sendo hábito ultimamente (ver artigo sobre neoliberalismo), o PM e o governo acham que o facto de dizerem “isto é azul” torna a coisa azul sem terem que dar mais explicações. As desculpas deixadas não passam de baboseiras para ocupar um parágrafo dos jornais, senão vejamos. A Oi é uma empresa “com mais clientes e mais facturação”. Verdade até venderem a Vivo à Telefónica (ou seja, mentira) e ainda para mais num mercado de menor e mais difícil crescimento (banda larga, telefone fixo). Para o PM “confirma-se a vocação internacional da PT e a sua vocação para desenvolver projectos industriais e de inovação tecnológica neste sector”. O internacional dou de barato mas gostava de conhecer que projectos de inovação é que a PT vai trazer para o mercado da banda larga no Brasil. Finalmente, o PM disse que com o negócio a PT mantém-se um “actor global no mercado da América Latina”, ficando eu sem saber se o mundo está a encolher ou se o PM acha que o globo se resume a Portugal, ex-colónias e América Latina, que é onde a PT é actor (ou actriz).
Dado que o PM não explicou as reais razões para o uso da golden share (errado na minha opinião, a começar no conceito), eu tentei decrifrá-las, começando pelo mais óbvio: dinheiro. O governo vetou um negócio de 7.15 mil milhões de euros a pronto para aceitar um de 7.5 mil milhões de euros em 3 pagamentos: 4.5 agora (ou dentro de 60 dias), mais mil em Dezembro de 2010 e os restantes 2 até Outubro de 2011. Assumindo uma taxa de custo de capital de 12% (não devo estar longe, sobretudo agora), os 7.5 mil milhões a prestações são praticamente o mesmo que 7.15 a pronto mas com um pouco mais de risco (tipo, o governo português ir à falência e a tal taxa de custo de capital disparar). Afinal os espanhóis não são tão estúpidos. Ou seja, excluo o motivo económico para justificar o negócio. Vamos a outros motivos. (quem quiser o cálculo simples de custo de capital e valor actualizado dos pagamentos pode pedir nos comentários, achei que seria demasiado chato e técnico)
O governo falou sempre na importância estratégica da presença no Brasil, nem que seja com um dedo do pé, ou seja, quota minoritária numa empresa de menor importância. Neste caso só se justifica o veto à primeira proposta se isso permitisse uma negociação mais favorável. O uso da golden share e a trapalhada que gerou, incluindo ameaças de Bruxelas, veio colocar pressão extra numa negociação deste tipo. Os accionistas da Oi, que não serão estúpidos, sabiam que a PT tinha que fechar o negócio sim ou sim e o mais rapidamente possível para não levantar mais ondas. Se tivesse aceitado a primeira oferta da Telefónica, a PT teria ido para a negociação com os bolsos cheios de dinheiro, o que também não facilitaria o processo, mas pelo menos nessa condição a PT poderia argumentar que tinha inúmeras opções porque teria tempo para usar esse dinheiro. Com a golden share às costas, à PT sobrava-lhe o dinheiro e faltava-lhe tempo, precisamente o pior dos inimigos numa negociação. Portanto o veto não melhorou a posição negocial da PT, como o governo quis fazer entender.
Corri outros argumentos vários e cheguei à conclusão que só um sobrevive a toda esta trapalhada: chatear os espanhóis nem que seja durante uns dias. Pronto Sócrates, leva lá a bicicleta. Mas o automóvel fica com eles.
August 3rd, 2010 | Author: hugorila |
O meu pessimismo sobre o futuro económico e social de Portugal é um segredo mal escondido. Talvez por isso quando li este artigo do New York Times pareceu-me ver aí espelhadas as carências da nossa economia e da nossa sociedade com a agravante de termos (ainda) menos armas para lutar, ou seja, não somos a 7ª economia mundial nem a etiqueta “Made in Portugal” é tão valiosa.
Penso que o artigo é merecedor de leitura e reflexão e tenho curiosidade em saber o que pensam os restantes leitores das semelhanças entre as duas realidades (italiana e portuguesa).
July 27th, 2010 | Author: hugorila |
Os que me conhecem sabem que ser do contra é algo que, não só não me preocupa, como me motiva. Neoliberal é, para a esquerda do nosso país, o insulto da moda. Qualquer crítica ao status quo é despachada com a palavra neoliberalismo como se tal fosse argumento suficiente para refutar argumentos válidos. E como o pensamento único é algo que eu abomino, decidi fazer aqui a defesa do neoliberalismo. Claro que esta defesa tem um parêntesis, já que eu vou aqui defender aquilo a que a esquerda em Portugal diz ser neoliberalismo e que é, em minha opinião, uma versão soft do liberalismo original e até da corrente neocon da direita republicana americana.
Podíamos até começar por discutir se a actual Constituição reflecte uma tão desejada (por mim, pelo menos) pluralidade ideológica mas deixarei essa discussão para outra altura. Começo por ressalvar que, durante e minha (relativamente curta) vida democrática já votei em três dos partidos com actual representação parlamentar e fi-lo sempre com base nos programas partidários apresentados a eleição. Não tenho filiação partidária nem aspirações a tal mas tenho consciência crítica e conhecimentos políticos e económicos para falar sobre este assunto.
Talvez o mais insistente perseguidor do neoliberalismo seja Mário Soares, que ultimamente parece ter em Paul Krugman o seu mentor, dadas as vezes que o cita. Não sei se por desconhecimento ou por desinteresse, Soares ignora que Krugman defende políticas que, no contexto da nossa esquerda, seriam consideradas neoliberais pela simples razão de que o espectro político americano está, no seu conjunto, mais à direita (liberal) do que o europeu e qualquer partido socialista europeu seria despachado pelos americanos como radical comunista.
O que é então um liberal? O liberalismo foi a ideologia de escolha que presidiu à revolução industrial durante o século XIX e princípios do século XX. Baseado na filosofia de Locke e Espinosa e na política económica de Adam Smith entre outros, o liberalismo deu substância social ao capitalismo, promovendo a liberdade individual e a crença de que o progresso económico e social seriam melhor servidos através da iniciativa individual e da acção mínima do Estado (Liberalism by Ludwig von Mises é uma obra essencial que pode ser encontrada grátis na internet). Apesar de trazer anos de prosperidade (com uma depressão pelo meio), o liberalismo trouxe também graves desigualdades sociais a que os mercados não conseguiam dar resposta. Tentando aqui resumir 50 anos de história numa frase, com o advento da I Grande Guerra, da grande depressão e como alternativa às doutrinas comunista e fascita, na primeira metade do século XX surgiu a social democracia. Tendo como principal ideólogo Eduard Bernstein, a social democracia tentava atacar duplamente os males do liberalismo e a teoria marxista que, na sua forma original, tinha falhado no seu intento de derrubar o liberalismo. As ideias base da social democracia são a da cooperação entre classes (em vez da luta de classes) e no uso do capitalismo como veículo para aumentar a riqueza e, em consequência, o bem-estar social. A social democracia defende ainda a supremacia do poder político sobre o poder económico, abrindo as portas à intervenção do Estado na economia mas numa lógica de supervisão em vez de controlo do capital. Resumindo social democracia numa frase, diria que é um capitalismo com preocupações sociais, nomeadamente de igualdade de oportunidades e acesso a serviços básicos e redistribuição da riqueza.
Depois deste relativamente longo parágrafo para descrever, de forma muito sucinta, um longo período da nossa história, chega a conclusão. A maioria das ideias que a esquerda tem classificado como neoliberais não são mais do que social democratas. Privatiar a TAP e a CGD, que operam em mercados concorrenciais, ou eliminar a golden share na PT não é liberalismo, é social democracia. Promover a iniciativa privada e a liberdade de escolha, incluindo na educação e na saúde não é liberalismo, é social democracia. Reduzir o peso do Estado na economia, eliminando parte da infindável colecção de institutos públicos cujo impacto no bem-estar social é duvidoso é social democracia. Para quem tem dúvidas recomendo a obra de Peter Gay sobre Bernstein (The Dilemma of Democratic Socialism).
Aquilo a que hoje a maioria refere como neoliberal não é mais do que um regresso à génese da social democracia, um caminho aliás que tem vindo a ser seguido pela Suécia por exemplo. E se eu entendo que para o PC e o BE estas ideias soem a heresia ultraliberal, já para o PS não passam daquilo que está escrito na declaração de princípios da Internacional Socialista, de que o PS faz parte, e que em grande medida defende as ideias de Bernstein. Aliás, como praticamente todos os partidos com aspirações ao poder na Europa.
Que o PS se queira encostar mais à esquerda é uma opção válida. Que queira tratar todos os que criticam essa opção como assassinos do Estado social é desonestidade intelectual. O Estado social que o PS defende e que governou durante grande parte dos últimos 15 anos tem destruído riqueza e retirado poder de compra à classe média, ao mesmo tempo que aumentou a diferença entre os mais ricos e os mais pobres. Se é este o Estado social que a esquerda tem medo que o neoliberalismo destrua, talvez fosse boa ideia ouvir ideias alternativas. O neoliberalismo que eu defendo tem por objectivo aumentar a riqueza e o bem-estar social e promover a igualdade de oportunidades. Sem intervenção do Estado em empresas privadas, sem bancos do Estado, com liberdade de escolha.
July 20th, 2010 | Author: hugorila |
Na Pública do passado fim de semana vinha publicado um perfil do CEO da PT que me deixou a pensar sobre as empresas e gestores portugueses e as razões pelas quais eu decidi emigrar. Quem lê o artigo fica a saber que Bava é um gestor de perfil pai tirano. Ele manda, não pede, liga aos empregados durante a madrugada, controla tudo, despede quem se põe no caminho. Como bom pai tirano, é um homem de família e religioso. Quando li o artigo fiquei a pensar se, como se diz, os portugueses têm realmente uma psicose que os leva a abraçar dirigentes de perfil ditatorial e paternalista ou se simplesmente os jornais não acham interessante publicar artigos de dirigentes com outro perfil. Invariavelmente, quem faz capas de jornais são gestores deste tipo, a começar pelo Belmiro de Azevedo que possivelmente tem feito escola.
O mote do Bava parece ser “é bem sucedido quem comete menos erros”, uma atitude que tem valido a Portugal anos de atraso e dependência do Estado. Os países evoluem através do empreendedorismo e da inovação. O grosso da inovação vem das pequenas empresas, daqueles que decidem arriscar num novo produto ou serviço. Para inovar é preciso falhar muitas vezes e a cultura de risco é o grande motor das principais economias. Em Portugal, infelizmente, há uma enorme aversão ao risco, o que nos leva a apoiar-nos no Estado ou em empresas tipo Estado em busca de conforto. Parece que o Bava vem dessa escola. Quanto menos se arrisca menos erros se comete, isso é quase uma certeza. Quanto menos se faz menos se erra. O segredo está em aprender dos erros. Ao contrário do Bava, eu penso que é bem sucedido quem mais e melhor aprende dos erros.
Lendo o artigo da Pública diria que o Bava é melhor chefe que gestor. Um chefe manda e espera que os outros obedeçam, um gestor influencia e espera que os outros o sigam. Parece insignificante a diferença mas não é. O gestor é inspirador, o chefe ameaçador. Quando eu andava na universidade a aprender gestão eu e os meus colegas esperávamos que esta cultura de chefia fosse lentamente substituída por uma cultura de gestão, à medida que a nossa geração fosse chegando a lugares de liderança. Mas essa mudança devia estar a acontecer e não se vê, antes vejo muitos dos que criticavam os chefes a imitarem-nos.
Eu tenho clara uma coisa. Quando se trabalha num ambiente de gestão nunca mais se quer voltar ao ambiente de chefia. Mas quando não se conhece melhor, talvez o Bava pareça uma boa opção. Afinal, ele até distribui flores às empregadas e dá umas bolsas de estudo. A melhoria da qualidade de vida quando se trabalha numa cultura que privilegia o risco, a aprendizagem e a responsabilidade é abismal e, em última análise, a principal razão para a minha fuga do país. Mas quero recusar-me a pensar que em Portugal não existem bons gestores – talvez apenas não cheguem aos jornais. Seria uma óptima notícia se começassem a aparecer.
July 12th, 2010 | Author: hugorila |
Li hoje (e também pude ver no vídeo da SIC) que o PR acha “totalmente improvável” Portugal sair da zona euro. Eu, que leio diariamente o blog do Paul Krugam, a cujas declarações o nosso PR respondia, fiquei logo muito mais descansado. Peguei na chaleira, fiz um chá e fui para a cama com a sensação de quem tinha acabado de acordar de um pesadelo.
Brincadeira! Antes de entrarmos na substância da matéria, vamos à forma. Totalmente e improvável são duas palavras que não se podem usar juntas, pelo menos não da boca do economista Cavaco Silva. Uma probabilidade é isso mesmo, provável. Muito provável, pouco provável, mas quando passa a totalmente deixa de ser probabilidade e passa a ser certeza.
Passemos à substância e vamos assumir que o PR acha impossível Portugal sair da zona euro. Desde logo a posição é sustentável. Comecemos pelos argumentos que levam Krugman a dizer que é “plausível” que a Grécia seja obrigada a sair da zona euro e por contágio Portugal e logo Espanha e Irlanda se vejam metidos em sarilhos sérios. Simplificando para ser conciso, com o BCE a seguir a política monetária que mais interessa a Alemanha, e dado que os problemas da Alemanha são muito diferentes dos da Grécia, Portugal ou Espanha, é plausível que estes últimos entrem num período de estagnação e deflação. A deflação vai fazer que o problema da dívida se agrave por si só, mesmo que essa não aumente, podendo levar estes países à bancarrota. Como os governos estão impedidos de executar medidas expansionistas por terem que respeitar os limites de défice, há dois cenários possíveis que levariam à saída da zona euro: obrigados pelos mercados e pelos restantes países da zona euro, ou por iniciativa própria por forma a poder desvalorizar a moeda, fazer frente à dívida e estimular as exportações. Em nenhum caso Krugman admite o fim do euro, já que acredita que a Alemanha e a França não deixariam que caísse. Obviamente, ele também admite que nada mude mas para tal serão necessárias mais ajudas aos países em dificuldades ou que a economia mundial cresça substancialmente para puxar a Europa da estagnação.
Isto é uma versão muito abreviada do argumentário do Paul Krugman que pode ser lido em vários posts no blog dele. A posição é polémica e não tem faltado debate sobre o assunto. Debate ao qual se juntou agora o nosso PR para descansar os portugueses. E quais são os argumentos de Cavaco Silva?
Ele diz “não acredito que Portugal alguma vez saia da zona Euro, nem acredito que a Grécia venha a sair”. Ok Cavaco, mas porquê? “Eu estudei muito a zona Euro, tenho livros publicados sobre a zona Euro [...] eu conheço o professor Krugman [...] eu acho que há uma certa falta de conhecimento do que é a zona euro”. [NR. O vídeo destas declarações está aqui] Ok Cavaco, por acaso o Krugman (o professor Krugman) também tem livros publicados, alguns sobre a zona euro, e talvez não por acaso ganhou o prémio Nobel ou o prémio Príncipe das Astúrias à custa dessas publicações. Já agora, não achas um pouco petulante tentares afirmar-te como um grande especialista da zona euro? E que tal um argumento concreto que contrarie um dos que esse senhor que desconhece a realidade do euro esgrime? Hummm… “Seria um desastre para a Europa se por acaso este edifício que é a União Monetária Europeia viesse a ruir”.
Ora aí é que está a questão. O Krugman não diz que o edifício venha a ruir, apenas que é possível que alguns inquilinos venham a ser despejados – aqueles que estão a dar má fama ao condomínio. E o único argumento concreto que o nosso PR esgrime nestas declarações só nos deviam deixar mais desassossegados. Diz ele “é sabido que as vantagens para um país pequeno pertencer à zona Euro são muito maiores do que um país grande” porque os custos de transacção com a moedas fracas eram sempre muito mais elevados do que os custos de transacção com as moedas fortes. E com este argumento em mente a conclusão é que é “totalmente improvável” Portugal sair da zona euro? Se alguém conseguir explicar-me o curto-circuito que vai pela cabeça deste senhor é favor comentar neste post.
PS. Eu penso que é improvável que algum país venha a sair da zona euro e baseio o meu palpite (afinal estamos todos a dar palpites) na falta de coragem que os dirigentes europeus têm demonstrado repetidamente face a problemas importantes, a começar pela crise da dívida grega. Penso que, caso a situação se agrave, não terão coragem de abrir a porta à Grécia e a Grécia não quererá sair do euro. Concordo com a análise do Krugman mas acho que, se chegar o momento da decisão, a Alemanha vai mandar mais dinheiro para tapar buracos. Talvez seja isso que o Cavaco quer dizer quando diz acreditar na sabedoria dos dirigentes europeus, mas como ele fala sempre em parábolas é sempre difícil perceber o que lhe vai na cabeça. O argumentário cavaquista da defesa do euro, esse é muito pobre, mas o especialista é ele…
July 1st, 2010 | Author: hugorila |
O post anterior foi escrito antes de se saber o desfecho da AG da PT onde se votou a venda da participação na Vivo à Telefónica. Eu por acaso pensava que a proposta ia chumbar por maioria dos accionistas porque a mesma corja que chumbou a OPA da Sonae faria agora o mesmo frete ao governo. Parece que não e, por alguma razão, desta vez até o BES virou as costas ao governo. E o governo veio dar razão à minha regra de 3 simples e usou a golden share para travar a operação.
A primeira e mais importante razão pela qual eu acho que esta decisão corrobora a dita regra é que, uma vez mais, o governo actuou a pensar no curto prazo sem pensar nos danos a longo prazo. O que é pior é que o governo teve que actuar agora porque há 3 anos tomou o mesmo tipo de decisão pensando nos benefícios de curto prazo, fossem eles quais fossem, e esquecendo que do ponto de vista do mercado a Sonae seria uma melhora gestora da PT. Só que, obviamente, seria uma gestora independente o que provavelmente desagradou ao Sócrates. Se puxarem do Google irão ver que já na altura a Sonae defendeu a venda da Vivo porque a parceria não era sustentável e apostava noutras vias de expansão. Agora vamos pelo mesmo caminho com a diferença que a actual gestão parece não ter soluções alternativas à Vivo.
Mas há mais razões para pensar que esta decisão é má para o longo prazo. Podemos dizer que a golden share irá com quase toda a certeza ser condenada pela UE e possivelmente até ilegalizada. O primeiro implica apenas ficar mal na fotografia, mas o segundo implica isso e faz com que a decisão seja totalmente inútil. É o que se chama ser apanhado com as calças na mão. O facto de se ficar a saber que o governo em Portugal intervém em empresas privadas cotadas em bolsa quando não lhe agrada o voto dos accionistas não vai ajudar à captação de investimento estrangeiro. Bom, talvez se a Venezuela tiver dinheiro para investir, o que não é provável. E por acaso o investimento estrangeiro daria um jeitaço em momentos de crise. Digo eu mas não sou ministro.
E portanto eu continuo a dizer, falta aqui o Blatter da gestão da crise para dizer ao Sócrates “o senhor dedique-se a cortar fitas e aparecer nas fotografias que a gente trata daquilo em que é competente”.
June 30th, 2010 | Author: hugorila |
Depois do presidente Nicolas Sarkozy se ter reunido com o capitão da selecção francesa de futebol e do seleccionador ter ido ao parlamento prestar explicações sobre o sucedido no mundial, o presidente da FIFA Sepp Blatter veio a público avisar que se o governo francês intervier na federação a selecção francesa ficará afastada de todas as competições organizadas pela FIFA, ou seja, europeus e mundiais. Apesar do Blatter ser um prepotente da pior espécie, neste caso tenho que saudar a intervenção por pôr as coisas no seu lugar.
O futebol é um jogo. É certo que envolve muito dinheiro mas é também porque gera esse dinheiro. Aliás, toda a questão dos prémios dos jogadores é mais uma prova da hipocrisia e demagogia que assola a política aqui e, pelos vistos, em toda a Europa. Se os jogadores ganham milhões é porque alguém os paga e se os Estados europeus se sentem incómodos com isso o único que podem fazer é tratar os clubes como qualquer outro negócio. Ou seja, desde que não haja dinheiro a circular desde o Estado em direcção a clubes de futebol e até mesmo à federação, o Estado tem é que estar calado porque é tão justo um jogador ganhar milhões em salário, como é um actor ganhar outro tanto por um filme ou um empreendedor tornar-se bilionário graças a uma ideia genial. Cada um à sua maneira usou o seu talento para subir na vida e o Estado só tem que cobrar os impostos relativos a esse rendimento e agradecer o facto desse cidadão pagar impostos nesse país. Como os prémios dos jogadores vêm das receitas do mundial e esta é uma competição privada que vive da fama dos jogadores, estes têm todo o direito de cobrar pelo tempo que aí passam.
Mas não é a isto que eu vou. Quando ouvi a declaração da FIFA em resposta à triste rábula da selecção francesa fiquei a pensar. Tal como a FIFA pôs em ordem o governo, afastando-o dos assuntos em que não é competente, não haverá por aí algum Sepp Blatter da gestão de crises económicas que faça o mesmo com o Sócrates? Vamos ser sinceros, a gestão desta crise económica em Portugal tem sido um dos maiores desastres políticos que eu vi em Portugal desde que eu me lembro da política portuguesa. Pior que o pântano do Guterres. O governo reagiu tarde e não aprendeu com os erros porque a cada novo problema respondeu sempre a reboque dos acontecimentos e quase sempre com más decisões que têm um escasso impacto positivo no curto prazo e potencialmente um desastroso impacto negativo no longo prazo. Afinal, trata-se de gerir um ciclo eleitoral e não um país, não é correcto camarada Sócrates e Cavaco Silva?
Quando se pensa em crises financeiras pensa-se no FMI. Tal como a FIFA, o FMI começa por F e está longe de ser uma organização perfeita. Mas, tal como a FIFA se vai muito lentamente adaptando às novas realidades do futebol, também o FMI se vai muito lentamente adaptando à nova realidade económica. E tal como a FIFA com as suas imperfeições gere melhor o futebol do que qualquer governo, também o FMI com todas as suas imperfeições será capaz de gerir melhor a crise em Portugal do que o nosso governo. É como se nós fizéssemos outsourcing da gestão da crise. O governo pode continuar a cortar fitas e dizer os disparates que continua a dizer mas o Strauss-Kahn é que trataria da gestão da crise.
Daí a minha regra de três simples. Blatter está para Sarkozy como Strauss-Kahn está para Sócrates. Fica a sugestão.
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